Aluguel devora salário em Rio Verde
Aluguéis em alta em Rio Verde (GO): boom do agro pressiona famílias de baixa renda, mas poder público é criticado por respostas lentas e insuficientes
Maria Silva*, 34 anos, chegou a Rio Verde há três anos vinda do interior da Bahia, atraída pelas vagas em indústrias da cidade. Com o marido trabalhando e dois filhos pequenos, a família aluga uma kitnet simples no Serra Dourada por R$ 1.400 mensais — valor que consome mais da metade da renda familiar. “A gente veio pra melhorar de vida, mas o aluguel come tudo. Sobrou pouco pra comida e remédio. Tem mês que atrasamos e o proprietário ameaça despejo. Os programas do governo prometem muito, mas na hora é fila, burocracia e espera eterna”, desabafa ela, enquanto organiza as compras do mês em um mercadinho.
Relatos como o de Maria ecoam em grupos de redes sociais, vídeos no YouTube e conversas nas ruas da “Capital do Agronegócio”. Enquanto Rio Verde ostenta o segundo maior PIB de Goiás (R$ 22,3 bilhões) e atrai investimentos do setor agropecuário, o custo da moradia virou um obstáculo intransponível para quem ganha pouco. Plataformas como Viva Real, ZAP Imóveis e OLX mostram, em março de 2026, kitnets e estúdios entre R$ 900 e R$ 1.650 por mês (média de R$ 1.200 a R$ 1.500), apartamentos de dois quartos de R$ 1.800 a R$ 3.500 e casas simples de R$ 1.600 a R$ 4.000. Esses preços são 20% a 30% mais altos que em Goiânia para imóveis parecidos, e o custo de vida geral na cidade é 23% a 24% superior ao da capital goiana.
O descompasso entre oferta e demanda explica boa parte do problema. A população cresceu cerca de 30% entre 2010 e 2020 e segue acelerada, estimada em torno de 241 mil habitantes em 2025, com projeções de 300 mil até 2032-2035. Migrantes de todo o Brasil — especialmente do Nordeste e interior — chegam em busca de emprego, mas a construção civil prioriza condomínios médios e de alto padrão. Os proprietários, vendo a valorização acelerada, preferem alugar caro ou vender, reduzindo opções acessíveis.
Para famílias de baixa renda (até dois ou três salários mínimos), o impacto é devastador. Muitos dividem moradias com parentes ou amigos, migram para bairros periféricos como Vila Renovação, Promissão e Maranata, ou acabam voltando à cidade de origem. “Tem gente que aguenta uns meses e desiste. O emprego existe, mas a vida aqui não compensa quando o aluguel suga tudo”, diz um trabalhador que pediu anonimato.
Poder público é alvo de críticas por lentidão e escala insuficiente
A Prefeitura de Rio Verde, junto com o governo estadual (via Agehab) e o federal (Caixa Econômica Federal), tem atuado com programas habitacionais, mas enfrenta duras críticas de moradores e especialistas por respostas lentas, burocracia excessiva e oferta que não acompanha a demanda explosiva.
Em novembro de 2025, foram entregues 192 apartamentos no Residencial Lázaro Pimenta (Campos Verdes), pelo Minha Casa, Minha Vida – Parcerias Cidades, e outras unidades em Lagoa do Bauzinho. O programa estadual Pra Ter Onde Morar – Casas a Custo Zero contemplou Rio Verde com 50 casas: 30 já entregues na primeira etapa, mas as outras 20 seguem paradas, aguardando infraestrutura básica como fornecimento de água da Saneago — um atraso que moradores classificam como “inaceitável” em meio à crise.
O Aluguel Social oferece R$ 350 mensais por até 18 meses a famílias vulneráveis, com inscrições prorrogadas em 2026, mas as vagas são limitadas e o processo envolve filas e documentação extensa. Muitos reclamam de critérios rigorosos (como CadÚnico atualizado, tempo mínimo de residência e não possuir imóvel), que excluem quem mais precisa.
“O poder público anuncia entregas e programas como solução, mas na prática é tudo lento, com muita burocracia e pouca escala. Enquanto isso, milhares de famílias sofrem com aluguéis abusivos e não conseguem entrar nos programas. Parece que o foco está mais em foto oficial do que em resolver o problema de verdade”, critica um morador em grupos locais, ecoando reclamações comuns sobre listas de espera longas, desclassificações frequentes e falta de transparência.
Especialistas em habitação ouvidos pela reportagem reforçam: sem regulação direta sobre preços privados, taxação à especulação ou aceleração massiva de construções populares, o impacto no mercado de aluguel permanece indireto e insuficiente. “O poder público ajuda em parte, mas prejudica ao não agir com urgência e amplitude. A demanda é enorme, e as respostas chegam gota a gota”, avalia um consultor do setor.
Para onde o mercado vai?
Com investimentos no agro previstos em R$ 6 bilhões para 2025 e mais de 1.100 unidades em construção, o mercado deve manter valorização moderada nos próximos anos. A tendência é de alta controlada, com possível alívio a médio prazo pela entrega de moradias populares — mas só se houver mais agilidade e volume.
Enquanto isso, quem enfrenta dificuldades pode buscar bairros mais afastados, dividir moradia ou investir em capacitação para subir na escala salarial do agro. A Prefeitura orienta: procure a Secretaria de Habitação (64 98152-0320) ou acompanhe editais da Agehab e Caixa.
Rio Verde gera riqueza e empregos, mas o desafio é fazer o crescimento chegar a todos. Para famílias como a de Maria, o sonho da estabilidade depende de um poder público mais rápido, menos burocrático e realmente comprometido em transformar a “Capital do Agro” em uma cidade inclusiva — antes que mais gente desista e volte para trás.
Nome fictício para preservar a identidade da entrevistada.
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