Muito além das salas de aula: como a UniRV ajuda a movimentar a economia de Rio Verde

Universidade atrai estudantes de outras localidades, sustenta demanda por moradia e amplia o movimento de restaurantes, bares, supermercados, transporte e outros serviços


A influência da Universidade de Rio Verde, a UniRV, não termina quando as aulas acabam. A circulação de estudantes, professores, servidores e familiares cria uma cadeia de consumo que alcança o mercado imobiliário, os restaurantes, os bares, o transporte, as farmácias, as academias e uma série de pequenos negócios espalhados por Rio Verde.

Criada em 1973 e transformada oficialmente em universidade municipal em 2003, a instituição ampliou sua presença ao longo das últimas décadas. Atualmente, mantém unidades em Rio Verde, Caiapônia, Goiânia, Aparecida de Goiânia, Goianésia, Formosa e Luziânia. Rio Verde permanece como sede administrativa e abriga o campus Fazenda Fontes do Saber, no Setor Universitário.

Essa estrutura ajuda a colocar o município no mapa do ensino superior goiano. Cursos tradicionais, programas de pós-graduação, residências médicas e processos seletivos para Medicina ampliam o alcance da universidade e atraem candidatos de diferentes localidades. A instituição oferece processos de ingresso por prova presencial e pelas notas do Enem, inclusive para Medicina, além de mestrados em áreas como Agronomia, Administração e Direito e doutorado em Agronomia.

O dinheiro que chega com os estudantes

Não há, até o momento, um estudo público que calcule exatamente quanto os estudantes da UniRV injetam por ano na economia de Rio Verde. A ausência desse número impede afirmar com precisão o tamanho do impacto, mas os efeitos estão presentes no cotidiano da cidade.

Quem se muda para estudar precisa, antes mesmo do início das aulas, encontrar moradia. Depois vêm os gastos recorrentes com alimentação, água, energia, internet, transporte, móveis, supermercado, farmácia, material acadêmico, lazer e serviços pessoais.

Essa movimentação não se restringe aos estudantes. Professores, servidores, prestadores de serviços e familiares de acadêmicos também consomem na cidade. Vestibulares, congressos, cerimônias de formatura e outros eventos acadêmicos ainda podem ampliar temporariamente a procura por hospedagem, alimentação e transporte.

Uma pesquisa conduzida por estudiosos da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas ajuda a compreender esse fenômeno. O estudo comparou 277 microrregiões brasileiras entre 1998 e 2019 e identificou que a chegada de universidades federais esteve associada, em média, a um acréscimo de 17,8 empresas por mil habitantes, aumento de 21%. O número de microempresas cresceu 53%, enquanto o de pequenas empresas avançou 105% nas regiões analisadas.

Embora a pesquisa tenha examinado universidades federais e seus resultados não possam ser transferidos automaticamente para a UniRV, o mecanismo econômico descrito pelos pesquisadores é semelhante: estudantes, professores e funcionários criam uma nova demanda por produtos e serviços.

Uma das autoras do trabalho, a pesquisadora Bruna Martins, explicou que a chegada de uma universidade produz um “choque de demanda”, porque empresas já instaladas nem sempre conseguem atender, sozinhas, ao consumo criado pelo novo contingente de estudantes e trabalhadores. Segundo o estudo, o número de empresas do varejo cresceu, em média, 62% nas regiões analisadas, enquanto o setor de serviços registrou expansão de 39%.

Moradia é um dos efeitos mais visíveis

O mercado imobiliário está entre os segmentos que mais facilmente revelam a presença da comunidade universitária. Apartamentos compactos, kitnets, flats mobiliados, repúblicas e imóveis compartilhados se tornam alternativas para estudantes que chegam sem família ou que pretendem permanecer na cidade apenas durante a graduação.

Anúncios encontrados em plataformas imobiliárias utilizam a proximidade da UniRV como argumento comercial. Há ofertas que destacam expressamente a localização no Setor Universitário ou a curta distância até a instituição. Alguns anúncios apresentam apartamentos de dois e três quartos por valores que variam conforme tamanho, mobília, condomínio e estrutura oferecida.

Isso não comprova que todos esses imóveis sejam ocupados por estudantes nem permite atribuir apenas à universidade os preços praticados na região. No entanto, mostra que a proximidade do campus é percebida pelo próprio mercado como um diferencial capaz de influenciar a procura.

O fenômeno também é observado em outras cidades universitárias. Reportagens sobre o mercado de locação mostram que o início dos semestres tende a aumentar a procura por imóveis compactos, mobiliados e próximos às instituições de ensino, especialmente quando parte dos estudantes vem de outras cidades.

Em Rio Verde, a demanda universitária soma-se à procura gerada pelo agronegócio, pelas indústrias e pelas empresas prestadoras de serviços. A UniRV, portanto, não explica sozinha o comportamento dos aluguéis, mas integra o conjunto de forças que mantém ativa a procura por moradia na cidade.

Restaurantes, bares e entregas entram na cadeia

Depois da moradia, a alimentação está entre as despesas mais frequentes da vida universitária. Restaurantes por quilo, lanchonetes, padarias, hamburguerias, cafeterias, bares, supermercados e serviços de entrega disputam um público que consome durante o dia e também no período noturno.

A rotina acadêmica favorece negócios que ofereçam rapidez, localização conveniente, entrega e preços compatíveis com o orçamento dos estudantes. O dinheiro gasto em uma refeição não permanece apenas no caixa do estabelecimento. Parte dele ajuda a pagar salários, fornecedores, aluguel, energia, transporte e tributos, espalhando o efeito econômico por outras atividades.

Os estabelecimentos localizados nos caminhos de acesso ao campus ou em bairros com concentração de estudantes tendem a estar mais expostos a essa movimentação. Em períodos de férias, esse fluxo pode diminuir; com a retomada das aulas, volta a crescer. Essa sazonalidade é uma das características econômicas de cidades que recebem estudantes vindos de outras localidades.

Transporte e serviços também ganham clientes

A comunidade acadêmica ainda influencia atividades menos imediatamente associadas à universidade. Transporte por aplicativo, oficinas, postos de combustíveis, academias, salões de beleza, lavanderias, assistência técnica, clínicas, laboratórios, farmácias e serviços de internet fazem parte das despesas de quem passa vários anos morando na cidade.

Cursos da área de saúde possuem um efeito adicional. Estágios, atividades práticas, residências e serviços prestados em clínicas-escola aproximam a universidade da rede local de saúde. Na área do agronegócio, a formação de profissionais e a produção de pesquisas ajudam a conectar a instituição a um dos setores mais importantes da economia de Rio Verde.

A universidade também mantém cursos técnicos, especializações, mestrados e doutorado, o que prolonga ou diversifica a permanência de estudantes e pesquisadores na cidade.

Empregos diretos e indiretos

A contribuição econômica da UniRV não depende apenas do consumo dos estudantes. A própria instituição mantém professores, técnicos administrativos e outros profissionais necessários ao funcionamento dos campi, laboratórios, clínicas, setores acadêmicos e unidades administrativas.

Também existe uma cadeia de empregos indiretos formada por empresas contratadas para limpeza, manutenção, tecnologia, segurança, obras, fornecimento de materiais e outros serviços.

O portal de transparência da universidade reúne receitas, despesas, folha de pagamento, contratos, balanços, licitações e relatórios de gestão. Esses registros demonstram que a instituição também participa da economia como compradora de bens e contratante de serviços, embora a ausência de um estudo consolidado dificulte separar quanto dessa movimentação permanece especificamente em Rio Verde.

Entre as contratações recentes aparecem serviços especializados de manutenção de equipamentos acadêmicos. Outro processo prevê a concessão de sete boxes internos da praça de alimentação da universidade para exploração comercial, aproximando diretamente a atividade acadêmica de pequenos negócios ligados ao setor de alimentação.

Universidade também forma capital humano

O impacto mais imediato aparece no consumo, mas a contribuição de longo prazo pode ser ainda maior. A universidade forma médicos, advogados, engenheiros, agrônomos, veterinários, administradores e outros profissionais que podem permanecer em Rio Verde depois da graduação.

Um estudo publicado na revista científica Avaliação constatou que a criação de campi universitários apresentou evidências de aumento da renda per capita e da proporção de trabalhadores com níveis médio e superior, além de redução média de 1,5 ponto percentual no percentual de pessoas pobres nos municípios analisados. Os autores ressaltaram, entretanto, que alguns efeitos econômicos precisam de períodos mais longos para aparecer de forma significativa.

Outra pesquisa sobre o impacto de universidades em municípios brasileiros observou que instituições localizadas em cidades do interior podem contribuir para a expansão da infraestrutura, dos serviços e do emprego formal. Em Pau dos Ferros, no Rio Grande do Norte, por exemplo, a consolidação do município como polo acadêmico foi acompanhada por expansão imobiliária, criação de novos bairros e crescimento do emprego formal.

Novamente, esses resultados não medem diretamente o caso de Rio Verde. Eles mostram, porém, que o papel econômico de uma universidade não se limita ao orçamento da própria instituição. A formação de capital humano, a pesquisa e o aumento da circulação de pessoas podem transformar a estrutura econômica de uma cidade durante décadas.

Um impacto certo, mas ainda não calculado

A UniRV é frequentemente apresentada como uma conquista histórica da população rio-verdense. A instituição cresceu, ampliou sua estrutura e passou a atender outras cidades de Goiás, mantendo em Rio Verde sua sede e um de seus principais centros acadêmicos.

O que ainda falta é um estudo específico que responda perguntas importantes: quantos alunos do campus de Rio Verde vieram de outros municípios ou estados? Quanto eles gastam mensalmente? Quantos imóveis são ocupados pela comunidade acadêmica? Quantos empregos e empresas dependem direta ou indiretamente desse público?

Enquanto essas respostas não aparecem, os sinais disponíveis apontam para uma conclusão: a universidade não movimenta apenas mensalidades e contratos. Ela leva moradores para Rio Verde, sustenta parte da demanda por aluguel, coloca clientes em restaurantes e bares, amplia o uso de transportes e serviços e ajuda a formar uma mão de obra qualificada que pode permanecer no município.

A UniRV é uma instituição de ensino, mas seu peso em Rio Verde também é imobiliário, comercial, urbano e econômico. Todos os dias, parte do dinheiro que circula pela cidade começa com alguém que veio estudar, ensinar ou trabalhar na universidade.

Compartilhe

Comente: Muito além das salas de aula: como a UniRV ajuda a movimentar a economia de Rio Verde