Inpasa começa a receber milho e aproxima Rio Verde de um novo ciclo de industrialização

Biorrefinaria de R$ 2,4 bilhões deve iniciar a produção por etapas, transformar 2 milhões de toneladas de grãos por ano e criar um novo mercado para produtores, transportadores e empresas da cidade


A futura biorrefinaria da Inpasa em Rio Verde entrou em uma nova etapa antes mesmo do início da produção industrial. A empresa já começou a comprar e receber milho colhido na safrinha goiana para abastecer a unidade instalada às margens da BR-060, sinalizando que a operação comercial ligada à indústria começou a movimentar a cadeia produtiva local. Quando estiver em plena capacidade, a fábrica poderá processar aproximadamente 2 milhões de toneladas de grãos por ano.

A abertura do recebimento de milho é importante porque antecipa parte dos efeitos econômicos esperados para Rio Verde. Produtores passam a contar com mais um grande comprador na própria região, enquanto transportadoras, armazéns, fornecedores, oficinas e prestadores de serviços começam a se preparar para o aumento da movimentação. A Inpasa não informou quanto milho já adquiriu, mas confirmou que o cereal recebido será utilizado na futura biorrefinaria rio-verdense.

O empreendimento representa investimento anunciado de aproximadamente R$ 2,4 bilhões e será a primeira unidade da Inpasa em Goiás. A empresa estima gerar até 2.700 empregos diretos e indiretos durante a construção, além de cerca de 420 postos permanentes quando a planta estiver em funcionamento. A unidade de Rio Verde já aparece na relação oficial de instalações da companhia, com endereço na BR-060, km 405, na zona rural do município.

Produção deve começar por etapas

As informações disponíveis apontam para um início gradual da atividade industrial. A projeção mais recente publicada pela Globo Rural indica que a Inpasa pretende começar as operações em Rio Verde no fim de 2026. Informações anteriores, atribuídas a um executivo da companhia, detalharam que a primeira linha poderia entrar em produção em dezembro de 2026, com a segunda etapa prevista para fevereiro de 2027.

Já o comunicado institucional divulgado pela Inpasa durante o lançamento da pedra fundamental indicava inauguração no primeiro trimestre de 2027. Portanto, a interpretação mais prudente é que a empresa pretende iniciar o processamento de forma parcial no fim de 2026, ampliando gradualmente a produção até alcançar a operação completa nos primeiros meses de 2027. O cronograma definitivo ainda poderá sofrer ajustes conforme o avanço das obras, a instalação dos equipamentos e os testes industriais.

Na primeira fase, a capacidade deverá corresponder ao processamento de aproximadamente 1 milhão de toneladas de milho por ano. Com a ativação da segunda linha, a capacidade anual poderá alcançar 2 milhões de toneladas. Essa escala coloca a unidade entre os maiores investimentos industriais da história recente de Rio Verde e modifica a relação da cidade com a produção local de milho e sorgo.

Milho produzido na região ganha um novo destino

O principal impacto imediato para os produtores será a criação de uma nova alternativa de comercialização. Parte do milho da segunda safra que atualmente percorre longas distâncias poderá ser vendida a uma indústria localizada no próprio município, reduzindo a exposição do produtor aos custos de transporte e ampliando a concorrência regional pela compra do grão.

Com mais compradores disputando a produção, o agricultor passa a ter melhores condições para comparar preços, prazos, custos de entrega e contratos. Isso não significa que a instalação de uma indústria garantirá automaticamente preços mais altos, pois as cotações continuarão influenciadas pelo mercado nacional, pelo câmbio, pela oferta e pela demanda. Entretanto, a proximidade física pode reduzir o peso do frete e melhorar a liquidez da produção.

A Secretaria de Agricultura de Goiás identifica Rio Verde entre os principais polos exportadores de soja do estado e destaca que o município também concentra grande capacidade de armazenagem. A presença de silos, cooperativas, empresas de comercialização e estruturas logísticas ajuda a explicar por que a Inpasa escolheu a cidade para sua primeira unidade goiana.

Rio Verde passa a transformar mais grãos dentro do município

A Inpasa produzirá muito mais do que etanol. Quando estiver em plena capacidade, a unidade deverá fabricar aproximadamente 1 bilhão de litros de etanol por ano, além de 490 mil toneladas de DDGS, ingrediente proteico utilizado na alimentação de bovinos, suínos e aves, e cerca de 47 mil toneladas de óleo vegetal. O projeto prevê ainda geração de energia a partir da biomassa utilizada no processo industrial.

Esse modelo permite aproveitar diferentes componentes do milho. O amido é direcionado à fabricação do biocombustível, enquanto proteínas, fibras e gorduras podem se transformar em produtos destinados à nutrição animal e a outras atividades industriais. A própria Inpasa define suas unidades como biorrefinarias multicereais capazes de utilizar milho e sorgo para produzir biocombustível, DDGS e óleos vegetais.

Para Rio Verde, isso significa agregar valor ao grão antes que ele deixe a região. Em vez de comercializar apenas a matéria-prima, a economia local passa a participar da transformação do milho em combustível, ração proteica, óleo e energia. Essa cadeia tende a gerar ocupações industriais, movimentar laboratórios, manutenção, automação, logística, segurança, engenharia e serviços ambientais.

DDGS pode fortalecer a produção animal

A produção anual projetada de 490 mil toneladas de DDGS poderá ter reflexos importantes sobre a pecuária e sobre as cadeias de aves e suínos. O produto possui alto teor de proteína e é utilizado na formulação de rações, criando a possibilidade de abastecimento regional com um coproduto fabricado dentro de Rio Verde.

A expectativa apresentada por representantes do setor é que a oferta de DDGS possa estimular novos projetos de confinamento bovino na região. Rio Verde já reúne expressiva produção de proteína animal e abriga grandes operações de processamento de alimentos, o que pode favorecer a formação de contratos e parcerias entre a biorrefinaria, fábricas de ração, produtores integrados e criadores.

Esse efeito amplia a importância da indústria para além do mercado de combustíveis. A Inpasa conecta produção de grãos, energia renovável e nutrição animal, fortalecendo a integração entre lavouras e criação de animais. O resultado poderá ser a formação de uma cadeia circular, na qual o milho produzido na região retorna ao agronegócio local na forma de ingrediente proteico.

Empregos devem mudar de perfil após a obra

Durante a construção, o empreendimento pode mobilizar até 2.700 trabalhadores diretos e indiretos. Esse período tende a favorecer construção civil, montagem industrial, transporte de materiais, locação de máquinas, alimentação, hospedagem e comércio. Entretanto, o número de empregos permanentes será menor, estimado em aproximadamente 420 postos na operação.

Os empregos industriais também deverão exigir qualificações diferentes das funções temporárias da obra. A operação de uma biorrefinaria demanda técnicos em química, automação, mecânica, elétrica, segurança do trabalho, laboratório, controle de qualidade, logística e manutenção, além de operadores de processos e profissionais administrativos. A companhia mantém um canal próprio de recrutamento, enquanto a instalação local fortalece a demanda por formação técnica especializada em Rio Verde.

O desafio para o município será garantir que uma parcela relevante dessas vagas seja ocupada por moradores da cidade e da região. Para isso, instituições de ensino, empresas e poder público precisarão alinhar a oferta de cursos às necessidades da usina, especialmente nas áreas de operação industrial, manutenção, mecânica, eletrotécnica, química, logística e segurança.

Comigo também influencia o novo cenário

A ampliação industrial não se limita à Inpasa. A Comigo, cooperativa fundada em Rio Verde, investiu aproximadamente R$ 1,5 bilhão em uma nova unidade de processamento de soja em Palmeiras de Goiás. A planta deverá elevar a capacidade de esmagamento da cooperativa de 5,5 mil para 11,5 mil toneladas por dia a partir de 2027.

Embora a nova esmagadora esteja em outro município, os efeitos alcançam diretamente Rio Verde, onde ficam a sede administrativa e o complexo industrial da Comigo. A cooperativa possui cerca de 12,5 mil cooperados, 3,7 mil funcionários e faturamento anual informado de R$ 11,23 bilhões em 2024, mantendo Rio Verde como centro de decisões, serviços e gestão de sua estrutura regional.

A presença simultânea da Inpasa e da Comigo amplia a demanda por milho e soja no Sudoeste Goiano. Para os produtores de Rio Verde, isso representa mais capacidade regional de processamento, menor dependência da venda direta para grandes tradings e maior possibilidade de transformar a produção antes de enviá-la a outros mercados.

Crescimento exige atenção à infraestrutura

Uma indústria capaz de processar 2 milhões de toneladas de grãos por ano produzirá um fluxo intenso de caminhões, insumos, combustíveis e produtos acabados. A instalação às margens da BR-060 oferece acesso a um dos principais corredores rodoviários do município, mas também aumenta a necessidade de segurança viária, manutenção das pistas, acessos adequados e organização do tráfego pesado.

O aumento da demanda por milho também exigirá capacidade de armazenagem e coordenação logística durante a colheita. Relatórios estaduais alertam que a concentração das safras pode gerar pressão sobre fretes e transporte. A nova indústria poderá reduzir algumas distâncias, mas o volume diário de entrada de matéria-prima e saída de produtos exigirá planejamento permanente.

Também será necessário acompanhar os impactos sobre energia, água, resíduos industriais e emissões. A utilização de biomassa e a produção de etanol renovável oferecem benefícios ambientais em comparação com combustíveis fósseis, mas uma unidade desse porte precisa cumprir condicionantes de licenciamento, monitoramento e uso eficiente dos recursos naturais.

Um novo capítulo para a economia de Rio Verde

A chegada da Inpasa marca uma mudança de escala na industrialização de Rio Verde. A cidade já é reconhecida pela produção de soja, milho, carnes e alimentos, mas a nova biorrefinaria acrescenta uma cadeia de bioenergia capaz de conectar agricultura, indústria química, nutrição animal, eletricidade e transporte.

O começo da compra e do recebimento de milho mostra que esse novo ciclo não está apenas no projeto. A cadeia comercial já começou a se movimentar, embora o processamento industrial ainda dependa da conclusão das obras e dos testes operacionais. O marco seguinte será o início da primeira linha, projetado para o fim de 2026, seguido pela ampliação da capacidade nos primeiros meses de 2027.

Para Rio Verde, o verdadeiro impacto será medido pela capacidade de converter o investimento em empregos locais, qualificação profissional, crescimento de fornecedores, segurança logística e maior agregação de valor à produção. Se esses efeitos forem bem aproveitados, a Inpasa poderá deixar de ser apenas uma grande usina na BR-060 e se transformar em um dos principais motores do próximo ciclo econômico da cidade.

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