De uma disputa com Patos de Minas à gigante MBRF: como a Perdigão transformou Rio Verde
Escolha anunciada em 1996 combinou produção de grãos, incentivos públicos e articulação política; três décadas depois, complexo emprega mais de 7 mil pessoas e responde por parcela expressiva da economia municipal
Antes de se tornar um dos maiores complexos da indústria de alimentos do Brasil, a unidade da Perdigão em Rio Verde foi objeto de uma disputa que mobilizou governos, prefeituras, produtores rurais e lideranças políticas de Goiás e Minas Gerais.
Na primeira metade dos anos 1990, a empresa catarinense estudava ampliar sua produção para além da Região Sul. O plano previa instalar no Centro-Oeste ou em sua área de influência um sistema integrado de criação e processamento de aves e suínos, próximo às regiões produtoras de milho e soja, principais matérias-primas utilizadas na fabricação de ração.
Rio Verde e Patos de Minas apareceram entre as principais candidatas. As duas cidades possuíam produção agropecuária relevante, localização estratégica e lideranças empenhadas em atrair o investimento. Mas, quando a decisão foi comunicada em 24 de junho de 1996, o maior projeto industrial ficou com o município goiano.
A escolha mudaria definitivamente a economia de Rio Verde.
Patos de Minas chegou a celebrar a chegada da empresa
A possibilidade de receber a Perdigão criou grande expectativa em Patos de Minas. A administração municipal mineira se dispôs a adquirir e preparar uma área de 54 hectares, enquanto produtores começaram a ser cadastrados para participar do sistema de integração da empresa.
O projeto apresentado aos mineiros previa inicialmente um abatedouro com capacidade para processar até 140 mil aves por dia, uma fábrica de ração e a formação de uma rede de criadores integrados. Estimativas divulgadas naquele período falavam na geração de centenas de empregos e em efeitos sobre milhares de produtores de milho da região.
Técnicos da Perdigão chegaram a participar da Fenamilho de 1997, onde conversaram com produtores interessados. Uma reportagem da época dizia que a instalação definitiva ocorreria em 1998 e apresentava a futura unidade como uma das maiores do setor avícola no país.
A movimentação levou parte da população a acreditar que o investimento estava praticamente assegurado. Entretanto, o projeto mineiro perdeu prioridade enquanto a empresa concentrava capital, estrutura administrativa e planejamento em Rio Verde.
Em abril de 2000, a Perdigão confirmou publicamente que havia descartado o empreendimento em Patos de Minas dois anos antes. A companhia afirmou que não possuía condições de executar simultaneamente os dois grandes projetos e decidiu concentrar os esforços em Goiás.
A decisão foi comunicada aos mineiros pelo governador
A notícia de que Rio Verde havia vencido a disputa chegou às autoridades mineiras em 24 de junho de 1996. Naquele dia, o então governador de Minas Gerais, Eduardo Azeredo, comunicou ao prefeito de Patos de Minas, Jarbas Cambraia, que a Perdigão havia optado pelo município goiano.
Na tentativa de reduzir o impacto político da derrota, autoridades mineiras anunciaram que Patos ainda poderia receber parte do projeto avícola. Falaram-se em investimentos de R$ 50 milhões e, posteriormente, em valores que variavam entre R$ 28 milhões e R$ 120 milhões. A prometida unidade, porém, não avançou. O terreno permaneceu sob responsabilidade da Prefeitura, e o projeto acabou abandonado.
O episódio deixou uma memória de frustração em Patos de Minas. Mais do que perder uma fábrica, o município viu Rio Verde receber o núcleo de um sistema industrial que envolveria frigoríficos, granjas integradas, fábrica de rações, incubatório, industrializados e uma extensa cadeia de fornecedores.
Por que Rio Verde venceu?
A explicação não se resume a uma única decisão política. Rio Verde oferecia uma combinação especialmente favorável de condições econômicas, territoriais e públicas.
A região já havia consolidado uma produção expressiva de milho e soja. A estrutura criada ao longo das décadas anteriores, com destaque para a atuação da Comigo e para os investimentos em armazenagem, pesquisa e mecanização do campo, permitia fornecer grande parte da matéria-prima necessária à produção de ração.
Segundo o então diretor de Relações Institucionais da Perdigão, Ricardo Menezes, a análise de viabilidade constatou que, em Patos de Minas, a empresa teria de disputar milho com compradores já estabelecidos. Em Rio Verde, por outro lado, havia excedente do grão. A empresa declarou na época que essa diferença produtiva, e não somente os incentivos fiscais, foi determinante para a escolha.
Estudos acadêmicos realizados posteriormente, entretanto, mostram que os incentivos públicos também tiveram papel decisivo. A Perdigão foi atraída pela produção de grãos, disponibilidade de áreas para a criação integrada, possibilidade de ganhos de escala, condições sanitárias e apoio financeiro oferecido pelas diferentes esferas de governo.
A região ainda apresentava uma estrutura fundiária diferente daquela encontrada no Sul. Em vez de depender de grande quantidade de pequenas propriedades familiares, a companhia poderia organizar módulos de produção maiores, mais automatizados e com menor custo logístico.
Governo de Goiás tratou projeto como prioridade
A conquista ocorreu durante o governo de Maguito Vilela, entre 1995 e 1998. Anos depois, o próprio ex-governador classificou a instalação da Perdigão em Rio Verde como um “divisor de águas” da política de industrialização de Goiás. Segundo o relato, o Estado procurava combinar infraestrutura, condições técnicas e incentivos fiscais para atrair grandes empresas e gerar empregos fora da capital.
O apoio governamental não se limitou à negociação política. A implantação contou com mecanismos de financiamento e incentivos fiscais, além de linhas voltadas aos produtores que precisariam construir granjas e ingressar no sistema de integração.
Recursos do Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste, o FCO, e do crédito rural ajudaram a financiar os módulos de aves e suínos. A Perdigão também negociou com o Banco do Brasil um fundo de amortização, formado por valores retidos dos pagamentos aos integrados, para reduzir o risco dos financiamentos.
O modelo previa prazos longos para pagamento e condições favorecidas. Mesmo assim, exigia investimentos elevados e garantias dos produtores. Um dos primeiros integrados citados em estudos sobre o projeto recebeu financiamento de aproximadamente R$ 1,1 milhão e precisou apresentar contrapartida de R$ 100 mil para implantar dois módulos de produção de leitões.
A planta também passou a receber benefícios do programa estadual Fomentar. Segundo o Governo de Goiás, o incentivo à unidade de Rio Verde é mantido desde 2003.
Articulação envolveu mais que incentivos
Os chamados bastidores políticos não estão integralmente registrados em documentos públicos. Há referências à atuação dos governos de Goiás e de Minas Gerais, das administrações municipais e das lideranças empresariais e rurais, mas não existe uma fonte única e confiável que permita atribuir a conquista exclusivamente a um político.
Em Rio Verde, a negociação encontrou uma base econômica construída ao longo de décadas por produtores, cooperativas e lideranças municipais. A cidade já contava com a estrutura da Comigo, produção crescente de grãos e uma classe rural organizada.
Paulo Roberto Cunha, uma das principais lideranças políticas e agropecuárias de Rio Verde, havia participado da fundação e direção da Comigo, presidido entidades cooperativistas e exercido mandato de prefeito. Também integrou o Conselho Deliberativo do Fomentar, programa utilizado por Goiás para incentivar a industrialização.
A documentação consultada confirma a importância de Paulo Roberto Cunha na consolidação da estrutura agropecuária e cooperativista de Rio Verde, mas não permite afirmar, sem registros adicionais, que ele tenha sido o responsável individual pela escolha da Perdigão. A instalação resultou de uma articulação mais ampla entre governo estadual, município, empresa, instituições financeiras e produtores.
Nasce o Projeto Buriti
O plano da Perdigão recebeu o nome de Projeto Buriti. A ideia começou a ser formulada em 1994, mas os primeiros contatos e parcerias com produtores de Rio Verde ocorreram em 1996. A implantação física ganhou força a partir de 1998.
O projeto era muito maior do que uma fábrica convencional. O complexo previa:
- frigorífico com capacidade para abater aproximadamente 281 mil aves por dia;
- unidade para 3,5 mil suínos por dia;
- fábrica de rações com capacidade de 60 mil toneladas mensais;
- granjas de matrizes;
- incubatório para produção de pintos;
- centenas de módulos integrados de aves e suínos;
- unidades para transformação das carnes em produtos industrializados.
Quando completamente implantado, o complexo deveria consumir cerca de 450 mil toneladas de milho e 150 mil toneladas de farelo de soja por ano. A expectativa da companhia era elevar sua capacidade produtiva nacional em aproximadamente 50%.
A escala explica por que a escolha da cidade envolvia muito mais do que a construção de prédios industriais. Era necessário formar uma rede de produtores, financiar granjas, garantir energia, água, estradas, mão de obra, transporte e fornecimento contínuo de grãos.
Produção começou pelos suínos
A primeira unidade do Projeto Buriti, destinada ao abate de suínos, começou a funcionar em junho de 2000. No primeiro ano de operação, o complexo já processava cerca de 2 mil suínos e 100 mil aves por dia.
Até agosto de 2001, os investimentos acumulados chegavam a R$ 290 milhões, de um total inicialmente previsto de R$ 400 milhões até 2003. Somente naquele ano, a Perdigão previa investir R$ 70 milhões na região, enquanto os produtores integrados aplicariam outros R$ 35 milhões na implantação de granjas.
A empresa também passou a participar de projetos sociais e urbanos. Em parceria com o município, ajudou na construção de um posto avançado do Corpo de Bombeiros e desenvolveu um programa habitacional para funcionários. Até 2001, 82 famílias haviam sido beneficiadas, e outras 100 casas estavam previstas.
Essa atuação refletia uma dificuldade provocada pelo próprio ritmo do empreendimento: a indústria crescia mais rapidamente do que parte da infraestrutura urbana disponível para receber os novos trabalhadores.
Complexo de R$ 700 milhões foi inaugurado em 2003
A inauguração completa do Projeto Buriti ocorreu em 6 de fevereiro de 2003. Naquele momento, a Perdigão informava ter investido aproximadamente R$ 700 milhões no complexo de Rio Verde, então considerado sua maior planta industrial no Brasil.
O empreendimento reunia dois frigoríficos, um de aves e outro de suínos, unidade de processamento de alimentos, fábrica de massas, fábrica de rações e incubatório. O complexo ocupava cerca de 2 milhões de metros quadrados.
Na ocasião, já empregava aproximadamente 3,7 mil pessoas diretamente e outras 10 mil indiretamente. A produção anual chegava a 60 mil toneladas de frango, 30 mil toneladas de produtos suínos e 90 mil toneladas de alimentos industrializados, com exportações para 14 países.
A inauguração contou com a presença do então vice-presidente da República, José Alencar. No mesmo evento, a empresa anunciou uma nova expansão e a assinatura de acordos com o Governo de Goiás e o Banco do Brasil.
Uma nova paisagem no campo
A chegada da Perdigão modificou a produção rural do Sudoeste Goiano. Fazendas antes concentradas em grãos ou pecuária passaram a abrigar grandes estruturas de criação de aves e suínos.
O modelo implantado em Goiás era diferente da integração tradicional do Sul. Em vez de pequenas granjas familiares dispersas, o Projeto Buriti priorizou unidades maiores e mais automatizadas, operadas principalmente por médios e grandes produtores com capacidade de oferecer garantias financeiras.
A localização das propriedades também seguia critérios logísticos. As granjas precisavam permanecer dentro de raios determinados em relação à fábrica, reduzindo os custos para transportar ração, animais, equipes técnicas e produtos.
Uma pesquisa acadêmica identificou, nos primeiros anos, 128 módulos integrados de aves e 132 de suínos distribuídos por 12 municípios. Aproximadamente 80% estavam no Sudoeste Goiano, envolvendo Rio Verde, Jataí, Santa Helena, Santo Antônio da Barra, Aparecida do Rio Doce, Maurilândia, Castelândia e Montividiu.
A indústria passou a conectar três cadeias que já possuíam forte presença regional: milho, soja e carnes. Os grãos deixaram de ser apenas vendidos para outras regiões e passaram a alimentar uma cadeia industrial instalada no próprio território.
A cidade também mudou
A transformação não ficou restrita ao campo. A chegada de milhares de trabalhadores aumentou a demanda por moradia, transporte, saúde, escolas, comércio e serviços.
Estudos sobre o período relacionam a implantação da Perdigão ao surgimento de novos bairros, à ampliação do mercado imobiliário, à atração de fornecedores e à abertura de empresas ligadas a transporte, manutenção, embalagens, alimentação e serviços industriais.
A população de Rio Verde cresceu 24,4% em aproximadamente uma década, acima dos 19,6% registrados por Goiás no mesmo intervalo analisado por uma tese da Universidade Estadual Paulista. O estudo considera que parte dessa diferença esteve ligada às empresas atraídas para o município e ao chamado “efeito Perdigão”.
Esse crescimento também trouxe pressões. O valor dos imóveis e dos aluguéis aumentou, o perímetro urbano avançou e o poder público precisou ampliar a infraestrutura. Pesquisas acadêmicas apontam ganhos econômicos e sociais, mas alertam que nem todas as mudanças positivas ou negativas podem ser atribuídas exclusivamente à empresa.
De Perdigão a BRF
Em 2009, Perdigão e Sadia anunciaram a união que daria origem à BRF. O negócio foi aprovado pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica em 2011, com condições, e a integração foi concluída em 2012.
A fábrica de Rio Verde passou, então, a integrar uma companhia global com marcas como Perdigão, Sadia e Qualy. Embora a razão social e a estrutura empresarial tenham mudado, a marca Perdigão permaneceu presente nos produtos e na memória da cidade.
Ao longo dos anos, a unidade continuou crescendo. Em publicação institucional feita quando o complexo completava 17 anos, a companhia informou que a planta possuía mais de 220 hectares, empregava cerca de 7,2 mil pessoas e mantinha uma estação de tratamento de água com capacidade equivalente ao abastecimento de uma cidade de aproximadamente 85 mil habitantes.
Dados divulgados pelo Governo de Goiás em 2024 mostravam que a unidade possuía mais de 7 mil colaboradores, trabalhava com aves, suínos e produtos processados e exportava para aproximadamente 20 países. Segundo o Estado, a produção local representava 21,5% da economia de Rio Verde.
Agora, MBRF
Um novo capítulo começou em 2025, quando a BRF e a Marfrig concluíram a fusão que criou a MBRF Global Foods Company. A nova empresa passou a reunir operações de aves, suínos, bovinos e alimentos processados, com marcas como Perdigão, Sadia, Qualy, Bassi e Banvit.
A fusão foi concluída em 22 de setembro de 2025, e as ações da nova companhia começaram a ser negociadas na B3 no dia seguinte, sob o código MBRF3. A empresa nasceu com receita líquida anual próxima de R$ 160 bilhões e presença em 117 países.
Com isso, a antiga fábrica da Perdigão em Rio Verde passou a integrar um dos maiores grupos multiproteínas do mundo. A unidade, porém, continua marcada pela origem do Projeto Buriti e pela transformação iniciada na década de 1990.
Uma escolha que mudou duas cidades
Para Patos de Minas, a disputa deixou a memória de uma indústria anunciada, preparada e nunca instalada. A cidade adquiriu terreno, mobilizou produtores e recebeu técnicos da empresa, mas viu o investimento perder prioridade e ser definitivamente descartado.
Para Rio Verde, a escolha representou uma mudança de escala. O município já era forte na produção de grãos e possuía uma agricultura moderna, mas a Perdigão ajudou a transformar essa produção em uma cadeia industrial completa, conectada aos mercados nacional e internacional.
A empresa não construiu sozinha o desenvolvimento rio-verdense. A base havia sido preparada por décadas de expansão agrícola, investimentos públicos, pesquisa, cooperativismo e atuação de produtores locais. Mas o Projeto Buriti funcionou como catalisador, acelerando mudanças que atingiram o campo, a cidade, o emprego, a demografia e o perfil econômico do município.
Três décadas depois da decisão que frustrou Patos de Minas e colocou Rio Verde no centro da estratégia da Perdigão, a antiga indústria catarinense mudou de nome, fundiu-se com a Sadia e, depois, passou a fazer parte da MBRF. O complexo permanece no mesmo lugar, agora como uma das estruturas industriais mais importantes de Goiás e como símbolo de uma escolha empresarial e política que alterou o destino econômico de toda a região.
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