Rio Verde chega ao segundo lugar nacional na produção de milho, mas desafio agora é transformar recorde em renda e empregos

Município produziu 2,67 milhões de toneladas em 2025, com crescimento de 18,7%, segundo levantamento divulgado pelo IBGE


Rio Verde consolidou-se como uma das principais potências agrícolas do Brasil ao alcançar a segunda posição entre os municípios que mais produzem milho no país. Em 2025, foram colhidas 2,67 milhões de toneladas do cereal, volume 18,7% superior às 2,25 milhões de toneladas produzidas no ano anterior, segundo dados da Pesquisa Agrícola Municipal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE.

O resultado coloca o município atrás apenas de Sorriso, em Mato Grosso, no ranking nacional. Em Goiás, Rio Verde lidera a produção, enquanto Jataí aparece na quarta colocação brasileira, com 2,02 milhões de toneladas.

Mais do que uma posição em uma lista, o volume alcançado demonstra a escala assumida pelo agronegócio rio-verdense. O próximo desafio é transformar uma parcela maior dessa produção em etanol, ração, óleo, proteína animal, energia e outros produtos de maior valor agregado dentro do próprio município.

É nessa etapa que uma safra recorde pode deixar de representar apenas riqueza produzida no campo e passar a gerar mais empregos industriais, arrecadação, serviços especializados e circulação de renda na economia local.

Produção cresceu mais do que a área colhida

A área destinada à colheita de milho em Rio Verde passou de 334,3 mil hectares em 2024 para 352 mil hectares em 2025, avanço de 5,3%. A produção, no entanto, cresceu 18,7% no mesmo período.

A diferença entre os dois percentuais indica que o aumento do volume colhido não veio apenas da ampliação da área. Houve também avanço no rendimento médio das lavouras.

A divisão da produção de 2,67 milhões de toneladas pelos 352 mil hectares colhidos resulta em rendimento aproximado de 7,6 toneladas por hectare. Trata-se de um cálculo realizado a partir dos números divulgados para produção e área, e não de um indicador apresentado diretamente pela reportagem original.

O desempenho também revela a importância da segunda safra. O plantio do milho depois da colheita da soja permite utilizar a mesma área agrícola em dois ciclos produtivos, distribuir custos fixos e ampliar a quantidade de grãos produzida ao longo do ano.

Rio Verde responde por cerca de um sexto do milho de Goiás

Goiás produziu 15,95 milhões de toneladas de milho em 2025, crescimento de 24,6% sobre as 12,8 milhões de toneladas registradas no ano anterior. A área estadual destinada ao cereal aumentou 11,6%, alcançando 2,37 milhões de hectares.

Com 2,67 milhões de toneladas, Rio Verde respondeu por aproximadamente 16,7% de todo o milho produzido em Goiás. Isso significa que cerca de uma em cada seis toneladas colhidas no estado saiu do município.

Rio Verde e Jataí produziram, juntas, aproximadamente 4,69 milhões de toneladas, equivalentes a 29,4% da produção estadual. Os números reforçam a concentração da cultura no Sudoeste Goiano e a importância da região para o abastecimento, a agroindústria e as exportações de Goiás.

O milho também teve peso relevante no valor da produção agrícola estadual. Em Goiás, o cereal movimentou R$ 13,7 bilhões em 2025, aumento de 42,1% em relação ao ano anterior. Esse valor corresponde ao conjunto do estado, e não exclusivamente à produção de Rio Verde.

Crescimento construído ao longo de décadas

A posição alcançada em 2025 é resultado de uma transformação de longo prazo. Em 1974, Rio Verde produzia 113,4 mil toneladas de milho. O volume chegou a 501,6 mil toneladas em 2010, ultrapassou a marca de 1 milhão em 2012 e alcançou 2,31 milhões de toneladas em 2019.

Entre 1974 e 2025, a produção municipal foi multiplicada por aproximadamente 23,5. Na comparação com 2010, o volume mais que quintuplicou.

A expansão não ocorreu de maneira contínua. Entre 2000 e 2005, por exemplo, a colheita diminuiu de 237,5 mil para 132,2 mil toneladas. A mudança de escala aconteceu posteriormente, com a consolidação da segunda safra, a adoção de tecnologia e o avanço das estruturas de armazenagem, processamento e comercialização.

O município também liderou Goiás em área agrícola total em 2025, com 854,6 mil hectares ocupados por diferentes lavouras. Além do milho, Rio Verde produziu 1,67 milhão de toneladas de soja e permaneceu entre os cinco maiores produtores nacionais da oleaginosa.

Produzir muito não garante, sozinho, o maior retorno econômico

A liderança agrícola cria riqueza, mas parte dos ganhos pode ser transferida para outros municípios quando o grão deixa Rio Verde sem passar por transformação industrial.

O milho pode ser comercializado in natura, utilizado na produção de ração, convertido em proteína animal ou processado para gerar etanol, óleo vegetal, ingredientes para nutrição animal e energia. Quanto maior o número de etapas realizadas localmente, maior tende a ser a presença de indústrias, transportadoras, fornecedores de manutenção, laboratórios e empresas especializadas.

Essa é a diferença entre ser apenas um grande produtor de matéria-prima e tornar-se também um polo de industrialização.

O tamanho da economia local já demonstra a força dessa integração. O PIB de Rio Verde chegou a R$ 22,31 bilhões em 2023, segundo números baseados nas contas municipais do IBGE. O PIB per capita oficial foi de R$ 98.849,92 naquele ano.

A fabricação de alimentos, o comércio e as atividades agrícolas estão entre os setores com maior presença de trabalhadores no município. Rio Verde tinha 89.857 pessoas ocupadas em 2023, de acordo com dados do IBGE citados em levantamento econômico local.

Quando uma nova indústria passa a comprar e processar milho na cidade, os efeitos potenciais se espalham por diferentes atividades. Além dos empregos dentro da fábrica, há demanda por transporte, armazenagem, manutenção industrial, energia, construção, tecnologia, segurança, alimentação e serviços administrativos.

Nova biorrefinaria muda a perspectiva para o milho local

A instalação da biorrefinaria da Inpasa representa o movimento mais concreto para ampliar a industrialização do milho em Rio Verde. A empresa anunciou investimento de R$ 2,4 bilhões em sua primeira unidade em Goiás, com inauguração prevista para o primeiro trimestre de 2027.

A planta foi projetada para processar anualmente 2 milhões de toneladas de grãos. O plano industrial prevê a produção de 1 bilhão de litros de etanol, 490 mil toneladas de DDGS, ingrediente utilizado na nutrição animal, 47 mil toneladas de óleo vegetal e geração de eletricidade a partir de biomassa.

A capacidade anunciada de processamento equivale a cerca de 75% das 2,67 milhões de toneladas de milho produzidas por Rio Verde em 2025. Essa comparação serve apenas para demonstrar a escala da indústria. Não significa que toda a matéria-prima utilizada será milho produzido no município, pois a empresa fala em processamento de grãos e poderá adquirir produção de outras localidades.

A companhia estima até 2,7 mil empregos diretos e indiretos durante a construção e outros 420 postos fixos na fase operacional.

A Inpasa informou que a decisão de investir em Rio Verde levou em consideração a infraestrutura logística, a força da produção agrícola regional e a capacidade de integração entre agricultura, energia e indústria.

Se o cronograma for cumprido, a unidade poderá criar um grande comprador local para o milho e outros cereais cultivados na região. A empresa afirma que o empreendimento deverá ampliar a liquidez do milho de segunda safra e do sorgo, além de reduzir custos logísticos e fortalecer as cadeias de proteína animal.

Etanol é apenas uma das possibilidades

O processamento do milho para a produção de etanol não elimina sua utilização nas cadeias de aves, suínos e bovinos. A própria biorrefinaria produzirá DDGS, coproduto com elevado teor de proteína destinado à alimentação animal.

A unidade de Rio Verde terá capacidade declarada para produzir 490 mil toneladas anuais desse ingrediente. A disponibilidade local pode ampliar as alternativas de alimentação para confinamentos e outras atividades pecuárias.

O resultado é uma integração industrial em que o mesmo grão pode gerar combustível, óleo, ração e energia. Esse modelo ajuda a diversificar as fontes de receita e reduz a dependência da simples venda do milho como commodity.

Para Rio Verde, a oportunidade está em conectar a grande produção agrícola às cadeias que já possuem presença relevante no município, principalmente alimentos, carnes, rações, energia e logística.

Ferrovia amplia capacidade de escoamento

A escala da produção exige infraestrutura capaz de transportar milhões de toneladas sem elevar excessivamente o custo do frete. Nesse ponto, o terminal ferroviário de Rio Verde tornou-se um dos principais ativos logísticos do município.

A Rumo informou que o terminal possui capacidade para movimentar até 11 milhões de toneladas por ano e opera na integração dos transportes rodoviário e ferroviário, com conexão pela Malha Central da Ferrovia Norte-Sul ao Porto de Santos.

Em 2025, a companhia movimentou aproximadamente 5,7 milhões de toneladas de grãos originados em Goiás. Para 2026, a previsão anunciada é transportar, por meio do terminal de Rio Verde, aproximadamente 6,4 milhões de toneladas de grãos e 1,1 milhão de toneladas de farelo de soja, totalizando cerca de 7,5 milhões de toneladas.

O terminal também passou a operar com fertilizantes e líquidos. Segundo a empresa, a estrutura recebe diesel e gasolina e transporta etanol até Paulínia, em São Paulo.

Essa diversificação ganha importância com a instalação da biorrefinaria. A produção industrial de etanol, óleo e ingredientes para alimentação animal cria fluxos logísticos diferentes daqueles da exportação tradicional de grãos.

Exportar continuará importante

A industrialização local não significa que Rio Verde deixará de exportar milho ou soja. A grande escala produtiva permite que o município combine mercado externo, consumo interno e processamento industrial.

Rio Verde já ocupa posição de destaque no comércio exterior de Goiás. Dados divulgados pela Secretaria de Estado de Indústria, Comércio e Serviços apontaram o município como o principal exportador goiano no período analisado, com US$ 638 milhões em vendas externas e participação de 15,41% nas exportações estaduais. Soja, milho, farelo, óleo de soja e carnes aparecem entre os produtos exportados.

O desafio econômico não é escolher entre exportar o milho ou transformá-lo localmente. É desenvolver capacidade suficiente para aproveitar os diferentes mercados e evitar que a cidade dependa exclusivamente da comercialização do grão bruto.

Empregos dependem da etapa seguinte à lavoura

A agricultura moderna alcança elevados níveis de produção com máquinas, sistemas digitais e operações cada vez mais eficientes. Esse avanço aumenta a produtividade, mas significa que o crescimento da colheita não gera empregos na mesma proporção do volume produzido.

Por isso, a maior oportunidade para ampliar o mercado de trabalho está nas etapas posteriores: armazenagem, transporte, manutenção de equipamentos, fabricação de rações, processamento industrial, produção energética, comércio exterior e prestação de serviços técnicos.

Os 420 empregos operacionais previstos pela Inpasa representam um efeito direto anunciado pela empresa. Outros impactos sobre fornecedores e negócios locais dependerão da contratação regional, da formação profissional disponível e do grau de integração da indústria com empresas instaladas no município.

Para que o recorde agrícola se converta em desenvolvimento mais amplo, será necessário preparar trabalhadores para funções industriais, laboratoriais, logísticas, ambientais, elétricas e mecânicas. A oferta de qualificação e a capacidade das empresas locais de participar da cadeia de fornecimento serão determinantes.

Recorde abre uma nova etapa para Rio Verde

O segundo lugar nacional confirma a eficiência alcançada dentro das propriedades rurais. Rio Verde produz em escala, dispõe de uma cadeia agroindustrial consolidada e possui conexão ferroviária com o principal porto exportador do país.

A próxima etapa consiste em ampliar o valor gerado por cada tonelada colhida.

A entrada de uma indústria capaz de processar 2 milhões de toneladas de grãos ao ano oferece a oportunidade mais visível, mas não encerra o desafio. A cidade precisará acompanhar os efeitos sobre armazenagem, trânsito de caminhões, energia, água, habitação, qualificação profissional e serviços públicos.

Rio Verde já demonstrou capacidade de multiplicar a produção de milho. Agora, o indicador mais importante será quanto dessa matéria-prima conseguirá transformar em produtos industriais, empregos permanentes, renda e oportunidades para a população.

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