Governo afasta risco de falta de fertilizantes, mas custos preocupam produtores de Rio Verde

Acordo prevê ampliar a oferta de fosfatados para a safra 2026/27, porém preços, câmbio, frete e dependência das importações continuam pressionando a rentabilidade no campo


O governo federal considera afastado, neste momento, o risco de desabastecimento de fertilizantes para a safra 2026/27. A avaliação traz algum alívio para regiões agrícolas como Rio Verde, onde soja e milho movimentam uma extensa cadeia econômica. A disponibilidade do produto, entretanto, não resolve outra preocupação decisiva para o produtor: quanto custará colocar o fertilizante dentro da propriedade.

O Brasil formalizou um memorando de entendimento com a OCP Nutricrops, empresa do grupo marroquino OCP, para ampliar a oferta de fertilizantes fosfatados ao mercado brasileiro. O documento estabelece como referência um volume de 3,8 milhões de toneladas para o ciclo 2026/27, quantidade correspondente a aproximadamente 76% do déficit nacional de cinco milhões de toneladas projetado pelo governo.

O anúncio, porém, precisa ser interpretado com cautela. O memorando não representa a compra imediata de todo o volume informado. As aquisições dependerão de contratos entre a empresa marroquina e os operadores brasileiros, com negociação de preços, fretes, condições de pagamento e prazos de entrega. O governo atua na abertura do canal de fornecimento, mas não será necessariamente o comprador direto dos produtos.

Para Rio Verde, o assunto é particularmente relevante. O município encerrou 2025 com aproximadamente 854,6 mil hectares plantados, mantendo a maior área agrícola de Goiás. O número representa crescimento de 0,37% em comparação com 2024 e coloca Rio Verde à frente de outros grandes polos estaduais, como Jataí, Cristalina e Mineiros.

Em uma estrutura produtiva dessa dimensão, mesmo pequenas variações no preço dos fertilizantes podem representar impactos elevados sobre o custo total da safra. A preocupação não se limita à presença física do produto no mercado. Ela envolve a relação de troca entre o fertilizante e os grãos, a cotação do dólar, o preço internacional das matérias-primas e o custo logístico para transportar o insumo dos portos até o interior de Goiás.

Dependência externa mantém setor exposto

O Brasil permanece fortemente dependente das importações para abastecer sua agricultura. Estimativas recentes indicam que mais de 80% dos fertilizantes utilizados no país têm origem estrangeira. Essa dependência deixa o setor exposto a conflitos internacionais, restrições comerciais, congestionamentos portuários e alterações cambiais.

Fertilizantes fosfatados têm importância direta para culturas como soja e milho, bases da produção agrícola de Rio Verde. O fósforo participa do desenvolvimento das raízes, do crescimento das plantas e da formação das estruturas reprodutivas. Diante de preços elevados, o produtor pode ser obrigado a rever o planejamento, negociar compras com maior antecedência ou, em situações mais extremas, reduzir a quantidade aplicada.

O problema é que a redução inadequada da adubação pode comprometer a produtividade. Por isso, a decisão sobre a compra de fertilizantes não depende apenas da cotação do insumo. O produtor precisa considerar a análise do solo, a expectativa de rendimento, o preço futuro dos grãos, as condições climáticas e a capacidade financeira para custear a lavoura.

O câmbio é outro fator determinante. Como grande parte dos fertilizantes é negociada internacionalmente em dólar, uma desvalorização do real pode encarecer o produto antes mesmo de qualquer alteração significativa no preço externo. Também entram na conta o frete marítimo, o desembarque nos portos, o armazenamento, o transporte rodoviário e as margens comerciais ao longo da cadeia.

Escala da produção amplia impacto em Rio Verde

A soja ocupou aproximadamente 428,5 mil hectares em Rio Verde durante 2025. A produção municipal chegou a 1,67 milhão de toneladas, aumento de 6,3% em relação às 1,57 milhão de toneladas registradas no ano anterior. O rendimento médio ficou em 3,9 toneladas por hectare, mantendo o município entre os cinco maiores produtores de soja do Brasil.

No milho, Rio Verde ganhou ainda mais destaque. O município produziu 2,67 milhões de toneladas em 2025, crescimento de 18,7% sobre o resultado de 2024. Com esse volume, passou a ocupar a segunda colocação nacional entre os municípios produtores do cereal, atrás apenas de Sorriso, em Mato Grosso.

A área destinada ao milho alcançou cerca de 352 mil hectares, enquanto o rendimento aproximado ficou em 7,6 toneladas por hectare. Sozinho, Rio Verde respondeu por aproximadamente 16,7% das 15,95 milhões de toneladas produzidas em Goiás. Os números mostram por que qualquer alteração no mercado dos fertilizantes pode produzir reflexos econômicos muito superiores aos limites das propriedades rurais.

Uma elevação relevante no custo da adubação pode reduzir a margem dos produtores, afetar a procura por máquinas e serviços, diminuir investimentos nas propriedades e tornar mais conservadora a contratação de trabalhadores. O efeito também pode chegar às transportadoras, cerealistas, armazéns, revendas de insumos, oficinas, consultorias agronômicas e instituições financeiras ligadas ao agronegócio local.

Oferta garantida não significa preço baixo

A negociação com o Marrocos reduz o risco de uma escassez física de fertilizantes fosfatados, mas não representa garantia de preços mais baixos. As condições comerciais ainda terão de ser acertadas, incluindo valores, prazos, volumes efetivamente contratados e despesas logísticas.

O mercado internacional continua sujeito a instabilidades provocadas por conflitos, restrições de oferta e elevação do custo das matérias-primas. Mesmo que o fertilizante esteja disponível, o preço final pode permanecer elevado caso o dólar suba, o frete aumente ou a oferta internacional volte a enfrentar dificuldades.

Nesse cenário, o planejamento antecipado ganha importância. Grandes produtores e cooperativas geralmente possuem maior capacidade de negociar volumes, contratar entregas antecipadas e diluir custos. Pequenos e médios agricultores, por outro lado, podem encontrar mais dificuldades para acessar condições comerciais favoráveis, especialmente diante de crédito mais caro ou margens reduzidas.

A situação também reforça a necessidade de ampliar a produção nacional de fertilizantes e reduzir a vulnerabilidade externa. Embora acordos internacionais sejam fundamentais para garantir o abastecimento imediato, a agricultura brasileira continuará exposta enquanto depender predominantemente de fornecedores estrangeiros para manter a produtividade das lavouras.

Reflexos vão além da porteira

A relevância de Rio Verde no agronegócio brasileiro faz com que o custo dos fertilizantes tenha impacto sobre praticamente toda a economia municipal. A cidade reúne produção de grãos, criação de animais, fabricação de rações, processamento de alimentos, armazenagem e transporte. O milho e a soja produzidos no município abastecem atividades industriais e pecuárias que dependem de oferta regular e preços competitivos.

O momento também coincide com uma produção agrícola nacional recorde. Em 2025, o Brasil colheu 345,4 milhões de toneladas de cereais, leguminosas e oleaginosas. O valor das principais culturas chegou a R$ 927,2 bilhões, crescimento nominal de 18,4% em relação ao ano anterior.

Em Goiás, o valor da produção agrícola alcançou R$ 72,75 bilhões, alta de 20,3% sobre 2024. O desempenho levou o estado da sexta para a quinta posição nacional, resultado sustentado principalmente pela expansão da soja, do milho e de outras culturas de grande escala.

O acordo para ampliar o fornecimento de fertilizantes representa, portanto, uma sinalização positiva para Rio Verde e para o restante da agricultura brasileira. O risco imediato de falta do produto diminuiu, mas a equação econômica permanece aberta. Para os produtores rio-verdenses, a verdadeira segurança só estará consolidada quando disponibilidade, preço, crédito, logística e valor dos grãos permitirem que a próxima safra seja plantada sem comprometer a rentabilidade.

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