Falta de água no Gameleira expõe pressão sobre o abastecimento em uma Rio Verde que cresce rapidamente

Fiscalização ocorreu após reclamações de moradores; expansão populacional e atraso na entrega do Sistema Rio Verdinho ampliam debate sobre a capacidade da infraestrutura hídrica


Problemas no fornecimento de água registrados no Bairro Gameleira e no Residencial Gameleira voltaram a colocar em discussão a capacidade da infraestrutura de saneamento de Rio Verde para acompanhar o crescimento acelerado da cidade. A Agência de Regulação dos Serviços Públicos de Saneamento Básico, a AMAE, informou que realizou uma averiguação nos dois bairros na manhã de segunda-feira, 21 de setembro, após receber reclamações relacionadas ao abastecimento.

A ocorrência não representa, isoladamente, uma crise generalizada no sistema municipal. Os dados disponíveis mostram, inclusive, uma redução expressiva das reclamações na região ao longo do último ano analisado. Ainda assim, o episódio chama atenção porque ocorre em uma cidade que chegou a 244.881 habitantes em 2026, quase 19,2 mil moradores a mais do que os 225.696 contabilizados no Censo de 2022.

A rápida expansão populacional aumenta a demanda por água tratada, reservação e redes de distribuição. Ao mesmo tempo, a principal obra destinada a reforçar o abastecimento da cidade, o Sistema Rio Verdinho, ainda está em construção e tem conclusão prevista para o segundo semestre de 2027.

Reclamações motivaram fiscalização

No comunicado publicado às 13h48 de segunda-feira, a AMAE informou que sua equipe de fiscalização esteve no Bairro Gameleira e no Residencial Gameleira para verificar reclamações sobre o fornecimento de água. O órgão regulador classificou o abastecimento na região como comprometido.

O comunicado disponível na página inicial da agência não informa quantos imóveis foram atingidos nem apresenta estimativa do número de moradores afetados. Também não especifica, no texto recuperado, a causa técnica do problema ou o horário de completa normalização do serviço. Por isso, não é possível afirmar, com os dados publicados, se a ocorrência foi provocada por falha operacional, baixa pressão, problema na distribuição ou outra situação.

A fiscalização ocorreu um dia antes de uma manutenção programada pela Saneago nos reservatórios elevado e apoiado da região. A AMAE havia informado, em 18 de setembro, que os trabalhos de limpeza e desinfecção seriam realizados na terça-feira, dia 22, com possibilidade de afetar o abastecimento.

Embora os episódios tenham ocorrido em datas próximas, as informações públicas consultadas não estabelecem ligação entre as reclamações verificadas na segunda-feira e a manutenção programada para o dia seguinte.

Gameleira já esteve entre as áreas com mais registros

O relatório de atendimento aos usuários elaborado pela AMAE com dados de 2025 coloca Gameleira I e II entre os bairros com maior número total de solicitações na Zona Sul de Rio Verde. Foram contabilizados 4.387 atendimentos de diferentes tipos na região, incluindo pedidos administrativos, serviços de água, hidrômetros, religações, vazamentos e ocorrências de esgoto.

É importante observar que esse total não representa apenas problemas no fornecimento. O próprio relatório esclarece que os registros incluem solicitações como mudança de titularidade, ligação e religação, informações, cadastro e serviços relacionados ao hidrômetro.

Quando considerados especificamente os problemas na prestação dos serviços, Gameleira I e II registraram, em 2025, 28 reclamações por falta de água, 90 por vazamentos de água e 104 por extravasamentos de esgoto.

Os números representaram uma melhora significativa em relação a 2024. As reclamações por falta de água caíram de 505 para 28, redução de 94,46%. Os registros de vazamento de água diminuíram de 323 para 90, queda de 72,14%. Já as reclamações relacionadas a extravasamentos de esgoto passaram de 154 para 104, redução de 32,47%.

O relatório concluiu que houve melhora consistente nos serviços de abastecimento e esgotamento sanitário na Zona Sul. Os problemas verificados nesta semana, portanto, aparecem depois de um período de redução das reclamações, mas mostram que ocorrências localizadas continuam exigindo fiscalização e resposta operacional.

Rio Verde registrou 643 reclamações por falta de água em 2025

Em toda a cidade, a Saneago e a BRK Ambiental registraram 94.995 atendimentos aos usuários ao longo de 2025. Desse total, 643 foram classificados especificamente como reclamações por falta de água, 4.231 como vazamentos de água e 2.257 como extravasamentos de esgoto.

O relatório alerta que a quantidade de reclamações não corresponde necessariamente ao número de ocorrências, pois um mesmo problema pode provocar registros de diferentes moradores. Ainda assim, os dados funcionam como indicador da população impactada e ajudam a identificar as regiões que precisam de acompanhamento.

A análise da AMAE apontou redução substancial dos problemas registrados em 2025 na comparação com 2024. Apesar da melhora, o documento defende a continuidade das ações corretivas e preventivas, a expansão da infraestrutura e o monitoramento das áreas que ainda apresentam ocorrências recorrentes.

Cidade ganhou quase 19,2 mil moradores desde o Censo

O desafio para o sistema de abastecimento ganha relevância diante da expansão demográfica de Rio Verde. O município tinha 225.696 habitantes no Censo de 2022 e alcançou uma população estimada em 244.881 pessoas em 2026. A diferença entre os dois levantamentos é de 19.185 moradores.

Esse crescimento exige que a infraestrutura acompanhe não apenas o aumento do consumo total, mas também a expansão geográfica da cidade. Novos loteamentos e bairros mais populosos precisam de redes, adutoras, reservatórios e pressão suficiente para que a água alcance os imóveis regularmente.

A ocorrência no Gameleira não permite concluir que todo o sistema esteja operando acima da capacidade. No entanto, ela reforça a importância de acompanhar se as obras estruturantes avançam na mesma velocidade da expansão urbana.

Sistema Rio Verdinho deve ampliar capacidade, mas conclusão está prevista para 2027

A principal resposta de longo prazo é a implantação do Sistema Rio Verdinho. De acordo com o Governo de Goiás, a nova Estação de Tratamento de Água terá capacidade para processar 800 litros por segundo e recebeu investimento de R$ 66 milhões. Em junho de 2026, a obra estava com 22% de execução física e conclusão prevista para o segundo semestre de 2027.

O projeto inclui dois módulos de tratamento, unidades de floculação, decantação e filtração, estrutura para tratamento de resíduos e recirculação de água, além de dois reservatórios apoiados com capacidade individual de 2 mil metros cúbicos e um reservatório elevado de 40 metros cúbicos.

Outra frente envolve a nova captação de água bruta, uma estação elevatória e uma adutora de 7,4 quilômetros. Essa etapa também terá capacidade de 800 litros por segundo, recebeu investimento de R$ 51,8 milhões e estava com 47% de execução em junho. A previsão oficial igualmente aponta conclusão no segundo semestre de 2027.

Segundo a Saneago, o sistema foi projetado para permitir ampliações futuras, acompanhar o crescimento populacional e reforçar a segurança hídrica de Rio Verde.

O cronograma atual representa uma alteração em relação às previsões divulgadas no lançamento das obras. Em 2024, a expectativa publicada era de que a nova estação entrasse em pré-operação até junho de 2026 e que o sistema estivesse totalmente concluído naquele ano.

A atualização oficial publicada em 2026, no entanto, indica que tanto a estação de tratamento quanto as obras de captação e adução deverão ser finalizadas somente no segundo semestre de 2027.

Universalização não elimina falhas localizadas

A AMAE publicou neste mês indicadores de universalização dos serviços de água e esgoto, com dados referentes a 2025. O levantamento foi elaborado para apoiar o planejamento necessário ao cumprimento das metas nacionais, que determinam atendimento de 99% da população com água potável e de 90% com coleta e tratamento de esgoto até 2033.

Cobertura do serviço, entretanto, não significa ausência completa de interrupções, vazamentos ou problemas de pressão. Uma cidade pode possuir rede disponível para grande parte da população e, ao mesmo tempo, registrar falhas operacionais em bairros específicos.

É nesse ponto que o episódio do Gameleira ganha dimensão maior. A questão não se limita à existência de água tratada ou de redes instaladas, mas envolve regularidade, capacidade de reservação, manutenção das estruturas e rapidez na solução das ocorrências.

Crescimento aumenta responsabilidade sobre planejamento

Os dados mostram duas realidades simultâneas. De um lado, as reclamações por falta de água diminuíram significativamente em várias regiões de Rio Verde, inclusive no Gameleira. De outro, a cidade continua crescendo, o sistema ainda registra ocorrências localizadas e sua principal ampliação estrutural tem conclusão prevista apenas para 2027.

Até que o Sistema Rio Verdinho entre em operação, o desafio será manter a regularidade do abastecimento com a infraestrutura atualmente disponível, executar manutenções preventivas e responder rapidamente às reclamações dos moradores.

A fiscalização realizada no Gameleira não comprova, por si só, um colapso no abastecimento de Rio Verde. Mas funciona como um alerta: em uma cidade próxima de 245 mil habitantes, falhas localizadas precisam ser tratadas não apenas como episódios isolados, mas como indicadores para o planejamento de uma rede submetida a uma demanda cada vez maior.

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