Dívida no campo acende alerta em Rio Verde e ameaça espalhar crise por comércio, serviços e empregos

Goiás já soma cerca de R$ 19,8 bilhões em crédito rural atrasado ou renegociado; em uma economia profundamente ligada ao agronegócio, aperto financeiro pode atingir transportadoras, revendas, oficinas, construção civil e mercado imobiliário


O agronegócio goiano atravessa uma crise aparentemente contraditória: o campo continua produzindo em grande escala, mas uma parcela crescente dos produtores e das empresas da cadeia enfrenta dificuldades para pagar dívidas, contratar novos financiamentos e preservar capital de giro. Em Goiás, informações divulgadas nesta semana indicam um estoque aproximado de R$ 81 bilhões em crédito rural, com R$ 7,52 bilhões em atraso e outros R$ 12,25 bilhões renegociados ou prorrogados. Somadas, essas operações chegam a aproximadamente R$ 19,8 bilhões, ou cerca de 24% da carteira estadual.

Os números exigem cautela porque não foram apresentados, nas fontes consultadas, em uma base pública detalhada por município, banco, cultura ou perfil de produtor. Ainda assim, convergem com outros indicadores confirmados por levantamentos nacionais: o crédito ficou mais seletivo, os custos financeiros aumentaram e os pedidos de recuperação judicial avançaram entre produtores e empresas ligadas ao agronegócio. Em uma cidade como Rio Verde, cuja economia conecta lavouras, agroindústrias, cooperativas, cerealistas, transportadoras, revendas e prestadores de serviços, o problema não tende a ficar restrito às propriedades rurais.

Rio Verde está no centro do risco

Rio Verde reúne características que ampliam tanto sua resistência quanto sua exposição à crise. O município possui uma economia mais diversificada do que a imagem tradicional de uma cidade agrícola, mas grande parte dessa diversificação surgiu justamente para atender o campo e transformar a produção agropecuária. Saúde, educação, tecnologia, armazenagem, logística, manutenção de máquinas, construção, comércio e serviços financeiros cresceram acompanhando a renda gerada pela soja, pelo milho, pela pecuária e pela agroindústria.

O Produto Interno Bruto de Rio Verde chegou a aproximadamente R$ 22,3 bilhões em 2023, enquanto o PIB por habitante alcançou cerca de R$ 98,8 mil. Em julho de 2026, empresas estabelecidas no município responderam por 31,07% das exportações goianas, movimentando aproximadamente US$ 424,3 milhões no mês. Nos primeiros sete meses do ano, as exportações vinculadas à cidade chegaram a cerca de US$ 2,31 bilhões, impulsionadas principalmente pelo complexo soja e pelas carnes.

Essa força econômica, porém, também cria dependência. Quando o produtor reduz compras, adia investimentos ou deixa de pagar fornecedores, a retração se desloca rapidamente para o espaço urbano. A primeira consequência costuma aparecer nas revendas de insumos, que concedem prazos, antecipam produtos e assumem parte do risco da safra. Depois, o efeito pode chegar às oficinas, concessionárias de máquinas, transportadoras, empresas de armazenagem, postos de combustível, consultorias, seguradoras e prestadores de serviços rurais.

Produção elevada não significa lucro garantido

O aumento das dificuldades financeiras não significa que o agronegócio tenha parado de produzir. Pelo contrário. A estimativa nacional para a safra de grãos 2025/26 chegou a aproximadamente 360,8 milhões de toneladas, com crescimento de 2,4% sobre o ciclo anterior. O problema está na distância entre aquilo que é colhido e o resultado financeiro que permanece com o produtor depois do pagamento dos custos, financiamentos, arrendamentos e compromissos assumidos.

Muitos produtores ampliaram investimentos durante o período de preços elevados das commodities, principalmente em 2021 e 2022. Houve aquisição de terras, máquinas, estruturas de armazenagem e contratação de áreas arrendadas. Posteriormente, parte das cotações perdeu força, enquanto fertilizantes, defensivos, peças, combustíveis, mão de obra e juros permaneceram caros. O resultado foi a redução das margens justamente quando dívidas contratadas no ciclo anterior começaram a vencer.

O cenário ajuda a explicar por que uma safra volumosa pode coexistir com inadimplência. Um produtor pode colher mais e, ainda assim, terminar o ciclo com menos caixa se o preço recebido não cobrir adequadamente o custo, o aluguel da terra e o serviço da dívida. Para quem trabalha com margens estreitas ou depende de financiamento para iniciar cada safra, uma sequência de resultados abaixo do esperado pode transformar um desequilíbrio temporário em incapacidade de pagamento.

Recuperações judiciais avançam em Goiás

O agronegócio brasileiro registrou 474 pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre de 2026, alta de 21,9% em relação aos 389 pedidos do mesmo período de 2025. Goiás apresentou 73 solicitações e ficou na segunda posição nacional, atrás apenas de Mato Grosso, que contabilizou 135. Ao longo de 2025, o setor agropecuário goiano já havia acumulado 296 pedidos.

O maior crescimento ocorreu entre produtores que atuam como pessoa jurídica. Foram 196 pedidos no país entre janeiro e março, avanço de 73,5% diante dos 113 registrados no mesmo trimestre do ano anterior. O cultivo de soja liderou o recorte por atividade, com 137 solicitações, seguido pela criação de bovinos, com 42. Empresas relacionadas à cadeia do agro também apresentaram aumento, incluindo agroindústrias, processadoras e prestadoras de serviços.

A recuperação judicial não equivale automaticamente à falência. O instrumento permite que uma atividade considerada viável tente reorganizar dívidas, preservar operações e negociar um plano com credores. No entanto, a abertura do processo também pode indicar que as alternativas anteriores, como renegociação direta, venda de ativos e alongamento de parcelas, não foram suficientes. Para municípios agroindustriais, cada recuperação de grande porte pode deixar fornecedores locais expostos a atrasos, descontos e prazos maiores para recebimento.

Crédito mais difícil pode comprometer a próxima safra

O impacto mais delicado da inadimplência não está apenas nas dívidas antigas, mas na capacidade de financiar o ciclo seguinte. Antes de colher e vender, o produtor precisa pagar sementes, fertilizantes, defensivos, combustível, manutenção, salários e serviços. Se bancos e fornecedores enxergam maior risco, podem exigir garantias adicionais, reduzir limites, elevar custos ou simplesmente recusar novas operações.

As regras de provisionamento adotadas pelo sistema financeiro também passaram a pesar mais sobre as operações atrasadas. Em determinados casos de inadimplência superior a 90 dias, o banco precisa reservar uma parcela expressiva do valor emprestado para cobrir uma possível perda. Mesmo após a renegociação, a liberação dessas provisões pode depender do pagamento regular das novas parcelas, processo que, no crédito rural, pode levar mais de um ciclo agrícola.

Os indicadores das instituições financeiras demonstram o agravamento. No segundo trimestre de 2026, a inadimplência das operações do agronegócio acima de 90 dias chegou a 6,27% no Banco do Brasil e a 20,74% na Caixa, segundo dados divulgados sobre as carteiras das duas instituições. Os números não representam especificamente Rio Verde, mas ajudam a explicar por que produtores goianos podem encontrar um ambiente mais restritivo na contratação de recursos.

Comércio de máquinas e insumos pode sentir primeiro

Em Rio Verde, uma das consequências mais prováveis é a postergação de investimentos. Em vez de trocar o trator, a colheitadeira ou o pulverizador, o produtor pode optar por reformar o equipamento existente. O mesmo comportamento pode ocorrer com estruturas de armazenagem, ampliação de propriedades, compra de veículos, irrigação e adoção de novos pacotes tecnológicos. Essa retração tende a alcançar concessionárias, fabricantes, oficinas e trabalhadores especializados.

As revendas de sementes, defensivos e fertilizantes também ficam mais vulneráveis quando financiam indiretamente a produção ou vendem com pagamento vinculado à colheita. Se o produtor atrasa, renegocia ou ingressa em recuperação judicial, o problema de caixa pode ser transferido ao fornecedor. Esse efeito em cadeia ajuda a explicar por que a crise do agro não deve ser analisada apenas pelo número de propriedades inadimplentes.

Emprego e consumo urbano entram no radar

Uma redução prolongada da renda agrícola pode afetar contratações temporárias, comissões de vendedores, serviços terceirizados e vagas em empresas dependentes do ciclo rural. O primeiro movimento costuma ser defensivo: suspensão de novas contratações, redução de horas extras, corte de despesas e adiamento de expansões. Demissões aparecem com maior intensidade se o aperto persistir ou se grandes empresas da cadeia entrarem em recuperação.

O comércio urbano também pode sentir a mudança. Produtores e profissionais ligados ao setor tendem a reduzir gastos considerados adiáveis, como veículos, reformas, imóveis, viagens e bens duráveis. Em uma cidade com forte circulação de renda agropecuária, isso pode diminuir o ritmo de vendas mesmo que a produção física permaneça elevada.

Mercado imobiliário pode perder velocidade

O mercado de imóveis de Rio Verde merece atenção porque parte da demanda por terrenos, casas e apartamentos está associada à expansão agroindustrial, à valorização patrimonial de produtores e à chegada de trabalhadores ligados ao setor. Uma crise de liquidez pode aumentar a oferta de propriedades colocadas à venda, reduzir compras à vista e elevar a procura por negociações parceladas ou permutas.

Isso não significa que os preços necessariamente cairão de forma imediata. Rio Verde continua recebendo investimentos industriais e possui demanda ligada à educação, à saúde, aos serviços e à logística. Entretanto, se produtores endividados precisarem vender ativos rapidamente, poderão surgir descontos pontuais em terras, imóveis urbanos, máquinas e veículos. O efeito dependerá da duração da crise e da capacidade de renegociação das dívidas.

Agroindústria pode amortecer parte da crise

Rio Verde possui uma vantagem em relação a municípios exclusivamente dependentes da produção primária: parte relevante dos grãos e da proteína animal é processada localmente. A presença de grandes agroindústrias, cooperativas, estruturas de armazenagem e conexões logísticas permite que a cidade capture valor em diferentes etapas da cadeia. Isso pode amortecer a queda na renda rural, embora não elimine o risco.

Novos investimentos, como a biorrefinaria da Inpasa, também poderão ampliar a demanda por milho e sorgo, criar empregos industriais e abrir uma rota adicional de comercialização. Ainda assim, uma nova indústria não resolve dívidas já acumuladas nem garante margem positiva para todos os produtores. O benefício dependerá dos preços de compra, do custo de transporte, da disponibilidade de grãos e da capacidade de cada propriedade de continuar financiando sua produção.

Crise exige acompanhamento sem alarmismo

Os dados não autorizam afirmar que todo o agronegócio de Goiás esteja em colapso. A dificuldade está concentrada principalmente em produtores e empresas mais endividados, com margens menores, expansão mal planejada ou dependência elevada de crédito. Há propriedades capitalizadas, empresas eficientes e cadeias que continuam apresentando resultados positivos.

Apesar disso, o volume de operações atrasadas ou renegociadas mostra que o problema deixou de ser isolado. Em Rio Verde, o principal risco é a transmissão da crise financeira do campo para a economia urbana. Quanto mais tempo o produtor permanecer sem liquidez, maior será a possibilidade de redução nas compras, atraso a fornecedores, venda de patrimônio, diminuição de investimentos e corte de empregos indiretos.

A cidade continua sendo uma das economias mais fortes do interior brasileiro, mas justamente por ocupar posição central no agronegócio nacional precisa acompanhar com atenção a qualidade do crédito, os pedidos de recuperação judicial, a atividade das revendas, o mercado de máquinas, o preço dos imóveis e o ritmo das contratações. O alerta não está na falta de produção. Está no risco de que uma safra grande gere faturamento, mas deixe caixa insuficiente para sustentar toda a cadeia econômica que cresceu ao redor dela.

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