06 de Março de 2018

BRF fraudava laudos laboratoriais e vendia carne de qualidade duvidosa

Laboratórios credenciados estariam escondendo qualidade sanitária dos lotes de animais

A Polícia Federal deflagrou ontem a Operação Tra­paça, que decretou 11 pe­didos de prisão temporária para pessoas ligadas à BRF. Elas são acu­sadas de participar de um esquema que fraudava laudos laboratoriais para esconder a qualidade sanitá­ria dos produtos e instalações da companhia. Através das fraudes, a empresa, que é uma das maio­res companhias de alimentos do mundo, dona das marcas Sadia e Perdigão, poderia estar vendendo carne contaminada com bactérias nocivas à saúde pública. Entre os presos estão o ex-diretor-presiden­te global Pedro de Andrade Faria e o vice-presidente de Operações Globais da empresa, Hélio Rubens Mendes dos Santos Júnior.

Segundo a Polícia Federal, as investigações mostraram que cin­co laboratórios credenciados pela Secretaria de Defesa Agropecuá­ria (SDA) do Ministério da Agri­cultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), fraudavam os resultados dos exames de amostras do proces­so industrial. O objetivo era burlar a inspeção para impedir a fiscaliza­ção do ministério sobre a qualida­de do processo industrial da BRF. A Polícia Federal, que apura fraudes entre os anos de 2012 e 2015, ale­ga que o esquema era acobertado pelos executivos da companhia, além do corpo técnico e de profis­sionais que respondiam pela qua­lidade dos produtos da empresa.

Operação chegou em Goiás atra­vés da análise de emails enviados pela ex-empregada da BRF, Adria­na Marques de Carvalho, que tra­balhava no frigorífico de Rio Verde, no sudoeste de Goiás, e tem uma ação trabalhista contra a empresa. Segundo a PF, uma supervisora des­sa fábrica escreveu um email solici­tando que Adriana alterasse laudos das análises. Ao saber da ação tra­balhista, o diretor-presidente global Pedro de Andrade Faria, recomen­dou que fossem tomadas “medidas drásticas” para proteger a empresa da apuração desses fatos. Um man­dado de busca e apreensão também foi expedido para o frigorífico de Mi­neiros, no sudoeste de Goiás, onde há suspeita de adulteração da quan­tidade de laudos positivos de conta­minação por Salmonella.

O alvo principal desta operação é justamente a fraude nas análises relacionadas ao grupo de bactérias Salmonella spp. A presença da bac­téria salmonela é comum, princi­palmente em carne de aves, por­que ela faz parte da flora intestinal desses animais. Durante o processo de preparo para o consumo, quan­do submetida a altas temperaturas, como fritura e cozimento, a bacté­ria é destruída. Dentre as mais de duas mil espécies de Salmonella, existem duas que oferecem risco à saúde pública e, por isso, devem ter medidas específicas nas granjas, vi­sando a redução de riscos ao con­sumidor. As fraudes nas análises, como em Rio Verde e Mineiros, po­dem ter permitido o repasse de car­nes contaminadas ao mercado. A PF disse que o risco a saúde públi­ca “não está devidamente configu­rado” porque, apesar das fraudes, “as espécies não foram identifica­das nos autos do processo”.

Apesar da PF não confirmar a presença das bactérias nas carnes, uma das testemunhas do proces­so, proprietária de uma granja no interior do Paraná, acusa a em­presa de repassar animais conta­minados para sua granja. A em­presária disse à PF que mantinha contrato com a BRF para produção de frangos e recebeu um lote com 46 mil aves contaminadas com a bactéria Salmonella pullorum. A proprietária disse ainda que a BRF negligenciou o problema e que as aves acabaram sendo abatidas ir­regularmente e destinadas ao con­sumo. Em nota, a BRF disse que “a Salmonella Pullorum é essen­cialmente de aves e não causa ne­nhum dano à saúde humana”.

Sobre a Operação Trapaça, a empresa disse que “segue as nor­mas e regulamentos brasileiros e in­ternacionais referentes à produção e comercialização de seus produ­tos, e há mais de 80 anos demonstra seus compromissos com a qualida­de e segurança alimentar, os quais estão presentes em todas as suas operações no Brasil e no mundo.

Conforme o jornal Valor Econô­mico, a operação de ontem aconte­ceu a partir de informações repas­sadas aos investigadores por Daniel Gonçalves Filho, acusado de ser o chefe de um esquema de corrupção no Ministério da Agricultura no Pa­raná. Gonçalves Filho fechou acordo de delação premiada com a Procu­radoria Geral da República, que foi homologado em 19 de dezembro de 2017 pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Batizada de Operação Trapaça, esta é a terceira fase da Operação Carne Fraca, deflagrada em maio do ano passado. Ao todo, a PF cum­priu ontem 91 ordens judiciais em Goiás, nas cidades de Rio Verde e Mineiros, além dos estados do Pa­raná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo. Os executivos em cargos de gerência da companhia também tiveram pedido de prisão. Ao todo, são 11 mandados de pri­são temporária, 27 de condução coercitiva, 53 de busca e apreen­são e 270 policiais federais envolvi­dos na Operação. Além de Rio Ver­de e Mineiros, as unidades da BRF de Carambeí (PR) e Chapecó (SC), também foram alvos da Operação.

A Operação Carne Fraca produ­ziu um prejuízo recorde de R$ 1,1 bilhão para a BRF em 2017 e colo­cou em cheque a qualidade da car­ne brasileira. Ontem as ações da BRF despencaram 19,75%, a maior queda diária da história da empre­sa. No ano, a ação acumula queda de 32,4% e a BRF perdeu quase R$ 5 bilhões em valor de mercado em um único dia, segundo dados da provedora de informações finan­ceiras Economatica.

Diário da Manhã

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