15 de Agosto de 2015

Memórias de um sobrevivente

As histórias nuas e cruas de quem esteve na mira dos submarinos alemães e assistiu soldados serem abatidos não por morteiros ou granadas, mas pelas doenças e falta de condições nos quartéis

Único rio-verdense vivo a ter servido a Força Expedicionária Brasileira (FEB) na 2ª Guerra Mundial, o veterano Agostinho José Macedo não é do tipo que fala com o ufanismo que muitos esperam de um ex-combatente. E não é à toa. Simplesmente não dá pra lembrar com muita saudade dos três anos que passou em um quartel com 650 homens, sem as menores condições de higiene e sobrevivendo de uma mistura de abóbora, feijão e arroz.

Hoje com 92 anos, ele articula a narrativa das histórias que aconteceram 70 anos atrás como se elas tivessem acontecido na semana passada. Lembra-se, por exemplo, da convocação para a guerra que tirou de suas famílias milhares de soldados brasileiros. Agostinho tinha 21 anos e havia acabado de se formar na primeira turma do Tiro de Guerra de Rio Verde. “A gente saiu de casa sem saber se voltaria vivo.”

Sem saber se a qualquer momento seria mandado ou não para o combate em terra na Europa, foi enviado para a Ilha de Cananéia, no litoral da Bahia, em 1941 e só retornou depois do fim do conflito, em 1944. No quartel, viu muitos colegas serem abatidos não por rajadas de metralhadora ou granadas, mas pelas doenças que se alastravam entre os reclusos. Um ano após sua chegada, ele mesmo vislumbrou a morte de perto. Estava em um dos seis navios que partiriam do litoral brasileiro para cruzar o Atlântico. Ao ser informado de que as cinco primeiras embarcações tinham sido atacadas pelos torpedos dos submarinos alemães, o comandante abortou o projeto. “A gente já tinha avistado muitos submarinos e sabia que estava na mira.”

Apesar da recepção festiva que os pracinhas brasileiros tiveram ao retornar para os seus lares, os combatentes ainda enfrentariam uma batalha de décadas pela aposentadoria. Foi apenas no governo de Fernando Collor de Melo, em 1992, que Agostinho e os demais ex-combatentes que restavam vivos passaram a receber suas aposentadorias. “Collor é de família de militares, então acho que ele ficou com vergonha de não pagar essa dívida.” Diferentemente da sorte de outros pracinhas, Agostinho voltou para sua terra com saúde de ferro e muita disposição para trabalhar.

Revista King – 15 de outubro de 2013

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