16 de Março de 2012

Consultório virtual: ansiedade social

A psicóloga Kátia Beal responde as perguntas e dúvidas dos leitores do Rio Verde Agora

Tenho 28 anos, sou solteiro, trabalho em uma fazenda. Minha vida inteira morei com meus pais, e sempre tive dificuldade em sair de casa, em namorar, e em fazer amigos. Não confio muito nas pessoas, vivo com medo de ser avaliado por elas, aliás, me sinto avaliado o tempo todo. Quando vou à cidade tenho medo de andar de elevador, se compro algo não gosto de assinar cheque em público e morro de vergonha na hora de digitar a senha do cartão. Fazer refeições em público então, nem pensar. Jamais tive coragem de me aproximar de uma menina pra iniciar uma paquera, por exemplo. Sinto minha vida vazia, tenho muito medo de tudo, medo de ficar só, de não encontrar a pessoa para preencher esta solidão.
Pedro



Pedro, pelo seu relato, você está com sintomas de ansiedade social, até bem pouco tempo conhecida como fobia social.

A principal característica da fobia social é a ansiedade diante de situações sociais em que a pessoa sente que está sendo observada, avaliada, analisada, por pessoas fora do seu ambiente familiar. Estas situações incluem falar em público, comer ou beber na frente de outras pessoas, estabelecer conversação com pessoas consideradas do alto escalão ou de autoridade, ou até mesmo convidar alguém para um encontro. Esse tipo de situação é evitada ao máximo, mas se não for possível, causam ansiedade antecipatória extremamente elevada, grau altíssimo de desconforto e sensações físicas paralisantes, como tremor nas mãos, taquicardia, rubor, sudorese, boca seca, bloqueio da fala. Esses sintomas, na maioria das vezes, podem ser observados pelas outras pessoas, o que causa um desconforto maior ainda no fóbico social, pois ele confirma a crença de que realmente estava sendo avaliado pelos outros.
    
O fóbico social tem um medo enorme de se sentir o centro das atenções, de estar sendo observado ou julgado negativamente. Os eventos sociais são preferencialmente evitados, ou, quando isso não é possível, são suportados com imenso sofrimento. Na maioria das vezes, o medo ou ansiedade começam dias ou semanas antes de o evento social ocorrer e são desencadeados pela mera expectativa de vivenciar a situação temida. Após o evento é bastante comum o fóbico social ficar avaliando seu desempenho. Costuma se isolar e sofrer uma profunda sensação de solidão. Ele julga ser o único culpado de seus problemas e estes não seriam compreensíveis para outras pessoas.

As causas para o surgimento da fobia social podem ser diversas: diferentes indivíduos terão diferentes componentes em sua carga genética, desenvolvimento psicológico precoce e experiências de vida, os quais, combinados, determinarão o surgimento do transtorno. O modelo etiológico atual para a fobia social é, portanto, multifatorial e incompleto. Alguns desses multifatores podem ser descritos como inibição comportamental em bebês e crianças pequenas, baixos escores de extroversão, neuroticismo, timidez na infância, experiências traumáticas condicionadoras, pais com transtorno evitativo de personalidade, familiares com transtornos de ansiedade.

O transtorno é mais frequente em mulheres, em indivíduos de baixo poder aquisitivo, sendo que seu inicio é precoce, com 50% dos casos iniciando na adolescência e 50% por volta dos 20 anos de idade. O pico de incidência é aos 15 anos. Em populações clínicas de ambulatórios especializados a prevalência é maior em homens. Menos de 25% dos fóbicos sociais recebem tratamento.

É o transtorno de ansiedade mais comum na população em geral, e o terceiro transtorno psiquiátrico mais frequente, com taxas de prevalência em 7 a 10%. O diagnóstico precoce pode prevenir a piora e a deterioração do quadro, com a melhora na situação ocupacional do paciente, na qualidade de vida e nas comorbidades.

Minha sugestão é que procure fazer uma avaliação com psicólogo e psiquiatra para que ambos estabeleçam uma estratégia de intervenção para lhe ajudar com a psicoterapia e com medicação. Pesquisas apontam que o tratamento associando  medicamento + terapia são mais eficazes no tratamento da ansiedade social, porque irão corrigir pensamentos distorcidos (trabalhando a emoção), atenuar os sintomas físicos (trabalhando os sintomas fisiológicos) e propondo mudanças significativas na maneira de ser perceber como pessoa, e evitando recaídas.

Kátia Beal
Psicóloga – CRP 04/36616
Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (UFU)
Uberlândia – MG
katiabeal@gmail.com

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