07 de Março de 2018

O que acontece agora com a BRF

Com a Operação Carne Fraca e briga entre os acionistas e o conselho de administração, a situação da BRF não é das mais positivas

A terceira fase da Operação Carne Fraca, deflagrada ontem, veio reforçar a crise pela qual passa a gigante BRF, maior exportadora de carne de frango do mundo. A operação trouxe à tona fraudes cometidas pela companhia nos laudos de salmonela para exportação.

À ação da Polícia Federal, que investiga irregularidades e fraudes laboratoriais cometidas por grandes frigoríficos, somam-se os prejuízos bilionários apresentados pela companhia no último ano, erros de gestão, queda no valor de mercado e as brigas internas.

Decepcionados com os resultados da empresa, os maiores acionistas da companhia, os fundos de pensão Petros e Previ, buscam destituir todos os membros do conselho de administração, hoje presidido pelo empresário Abilio Diniz.

A situação da empresa não é das mais positivas. A questão é: e agora?

Analistas dizem que a situação da empresa é complexa e vai demorar para se estabilizar. Ou seja, a BRF deve enfrentar um longo inverno.

“A empresa já estava rodeada de incertezas, por conta das disputas internas em torno do controle”, disse Carlos Soares, analista da Magliano Corretora. A operação Carne Fraca apenas aumentou as inseguranças do mercado em relação à companhia.

De acordo com relatório do BTG Pactual divulgado hoje, “há potencial para outra forte redução de estimativas” nas receitas e ganhos da empresa. Isso porque, após a operação da PF, o Ministério da Agricultura interditou três plantas de produção da companhia – Rio Verde (GO), Curitiba (PR) e Mineiros (GO) – o que deve comprometer os resultados da empresa.

Em relação às acusações, a BRF informou que colabora com as investigações para esclarecer os fatos e que segue as normas e regulamentos relativos à produção e comercialização de seus produtos no Brasil e no exterior.

Mesmo assim, as vendas da empresa devem ser impactadas. A operação Carne Fraca afeta a imagem da BRF e de suas marcas, Sadia e Perdigão, e, como consequência, consumidores podem deixar de comprar os produtos da empresa. “O risco de imagem é muito grande e podemos ver impacto na receita da companhia, com a diminuição da demanda”, afirmou Luiz Gustavo Pereira, estrategista da Guide Investimentos.

Além disso, há a possibilidade de que países imponham restrições à importação de carne da BRF, assim como aconteceu logo após a primeira fase da operação da PF. Recuperar a confiança e as vendas para esses mercados é um trabalho longo. “Conquistar mercados estrangeiros demora muito tempo. Mas, para perder, é num instante”, afirmou Soares.

Dívida alta

Com a provável diminuição da receita, a companhia pode ter outro problema grave: a alavancagem, que é a relação entre receita e dívida. A dívida líquida chegou a 13,3 bilhões de reais no final do ano passado, levando a alavancagem a 4,46 vezes, patamar considerado alto pelos analistas.

Resolver esse problema não será fácil. De acordo com relatório do banco BTG Pactual, a redução da dívida da companhia deve ser prejudicada pelos acontecimentos de ontem, que colocam “as expectativas da BRF em relação à desalavancagem em cheque”, diz o banco.

Somada a isso vem a crise institucional. Os fundos de pensão da Petrobrás (Petros) e do Banco do Brasil (Previ), maiores acionistas da BRF, querem a troca total do comando da empresa. Em reunião realizada ontem, foi marcada uma Assembleia Geral Extraordinária (AGE) para dia 26 de abril para discutir o tema.

A empresa consegue se reerguer?

Com todos esses fatores, o futuro da BRF é cheio de obstáculos e especialistas ouvidos pelo site EXAME não vislumbram uma recuperação rápida.

“As mudanças de diretoria e do conselho devem demorar para ter efeito prático na empresa”, afirmou Pereira. Para ele, as ações da companhia continuarão arriscadas e voláteis no curto prazo.

O mesmo dizem os analistas do BTG Pactual: “Considerando os resultados recentes e os eventos de ontem, nossa aposta inicial é de que isso não muda muito. Há muito para consertar e, sem uma estratégia clara e a necessária experiência no setor alimentício, há um longo caminho pela frente”.

Para recuperar a confiança dos investidores, uma das principais tarefas da companhia deve ser a adoção de melhores práticas de governança, dizem os analistas. Reconquistar os mercados perdidos com os escândalos também está na lista de tarefas da empresa.

Porém, mesmo com o futuro nublado, há esperanças para a companhia. “Vimos empresas em situações muito piores, como a Petrobras, se recuperarem”, afirmou Soares.

Revista Exame

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