15 de Abril de 2013

A Terra não suporta excessos

Confira o novo artigo do economista Marcus Eduardo de Oliveira

São quase 800 grupos corporativos mundiais que dominam a cena da intermediação financeira e se regozijam com a “economia da acumulação e da devastação”, pouco se importando com os custos ambientais gerados pela excessiva produção da qual fomentam. Para esses grupos, os passivos ambientais (poluição do ar, da água e a diminuição da cobertura vegetal do planeta, entre outros) não passam de meras externalidades, ou seja, não são contabilizados.

Com isso, a economia cresce defeituosamente, poluindo mais e ceifando vidas pelo caminho. De acordo com o relatório Desafio Global, elaborado pela ONU, em 2010, mais de 3 milhões de pessoas morrem ao ano em razão da poluição causada, por exemplo, pelo dióxido de carbono (CO2), monóxido de carbono (CO) e hidrocarbonetos (HC).

De um lado, a “turma do capital” se empaturra cada mais vez na tarefa em ganhar dinheiro; do outro, o meio ambiente sofre as consequencias.

Enquanto a forma de produção industrial não for mudada, respeitando os ciclos normais da natureza, longe ficaremos do verdadeiro Estado do bem-estar social, e cada vez mais veremos um crescimento econômico “falso” enraizado na premissa em satisfazer o consumo material dilapidando o capital natural.

Na China, expressão maior desse “crescimento dilapidador da natureza”, um terço dos rios e 75% dos lagos do país estão contaminados. Das vinte cidades mundiais mais poluidas, 16 delas são chinesas. Mais de 60% das mortes relacionadas à poluição ocorrem na Ásia, especialmente devido à explosão do crescimento econômico e compra de automóveis na região. Na Europa, só resta 0,1% das florestas do planeta, ante 7% existentes num passado não muito distante.

Já que a economia tradicional age de forma irresponsável e pouco compromissada para com a questão ambiental, cabe à economia ecológica a tarefa de alertar sobre os riscos advindos de uma produção econômica excessiva. É imprescindível, portanto, combater excessos e entender que o progresso humano não pode, em hipótese alguma, ser confundido com crescimento material, muito menos esperar que o crescimento físico da economia consiga satisfazer a todos. A Terra não suporta excessos. Gandhi, a esse respeito, assim profetizou: “A Terra possui recursos suficientes para prover às necessidades de todos, menos dos gananciosos”.

Nessa mesma linha de argumentação, Leonardo Boff diz que “(…) precisamos produzir para atender as necessidades humanas. Mas produzir respeitando os ritmos da natureza, os limites de cada ecossistema e optar por uma forma de consumo solidário, responsável, uma verdadeira simplicidade voluntária. Isso seria o desenvolvimento sustentável e humano. Caso contrário, não sobram recursos para as gerações de nossos filhos e netos. Não somos os únicos que usam a biosfera. Também os animais, as florestas e todos os seres vivos. Sem eles nós não sobreviveríamos”.

Essa crise ecológica ora vivenciada decorre do crasso erro “patrocinado” por um sistema econômico que defende um crescimento ilimitado num mundo limitado, como se a biosfera fosse um enorme báu inesgotável.

Se almejamos obter uma vida mais tranquila em um mundo mais desenvolvido e equilibrado do ponto de vista ambiental, urge pôr um ponto final nesse modelo econômico que somente faz diminuir o capital natural, agredindo os serviços ecossistêmicos. O primeiro passo para isso é criar e difundir uma consciência ecológica.

Essa consciência ecológica passa, obrigatoriamente, por eliminar aquilo que Fritjof Capra chama de “analfabetismo ecológico”.

Esse tipo de consciência se consegue disseminando informações. Para tanto, é preciso desenvolver uma política nacional de educação ambiental. Em outras palavras, é necessário criar a ecoalfabetização que seja capaz de sensibilizar a sociedade para a crucial importância que representa o sistema ecológico em nossas vidas.

Urge difundir a noção básica de que o crescimento econômico precisa ter limites e, antes disso, deve-se buscar um tipo de atividade econômica realçada nos valores da justiça social aliada à proteção do meio ambiente. Fora disso, é a vida que corre riscos.

Definitivamente, o homem não pode se esquivar dessa consciência. É imperioso não perder de vista que a natureza é a provedora maior das necessidades humanas, e, portanto, precisa ser tratada com parcimônia.

Infelizmente, parece que muitos ainda não se deram conta de que somos parte da natureza e que essa não é composta apenas pelos seres humanos. Todos os seres são interdependentes e formam a comunidade de vida.

Pela continuidade da vida, com padrões equilibrados e uma economia justa social e ambientalmente que esteja centrada no paradigma da preservação, conservação e sustentação do meio ambiente, espera-se que a ecoalfabetização aconteça, afinal de contas, a Terra não suporta excessos.

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